Não sei quanto a vocês, mas tem muito escritor – dos grandes, dos que fazem parte da história da nossa literatura, verdadeiros tesouros – brasileiro que nunca li na vida, alguns li na escola ou aqui e ali, meio que aleatoriamente em alguma biblioteca da vida, e mais recentemente, até em postagem de amigos no Instagram ou no Facebook.

Foi o que aconteceu com relação ao Manoel de Barros. A querida amiga de IG e Face, Derbia, postou algo dele e aquelas palavras prenderam – ou seria pescaram? – meu olhar de imediato. Claro que nos tempos de colégio estudamos alguma coisa nas aulas de literatura ou língua portuguesa, só que com o tempo, por mais que eu seja apaixonada por poesia, por romance, por leitura de uma modo geral, por exemplo, ele realmente havia caído no esquecimento da minha memória. E não devia…

Manoel de Barros, poeta brasileiro pós-moderno, nascido na terra da amiga que me permitiu voltar no tempo e relembra-lo, Cuiabá, teve Rimbaud como inspiração, foi simpatizante do comunismo em 1940, inclusive fez parte da Juventude Comunista, admirador de Prestes (não por muito tempo, segundo espalham por aí) e chegou a quase ser preso por pichar uma estátua com a frase “Viva o Comunismo”.

Tem uma infinidade de obras publicadas, mas ficou muito tempo desconhecido do grande público, segundo contam os estudiosos, porque não era dado a “bajular ninguém”. (acho que só aqui já reforço minha admiração por ele).

Foi Millôr Fernandes quem impulsionou de vez a carreira do poeta, fazendo com que seu trabalho se destacasse nacionalmente, inclusive sendo premiado com diversos prêmios literários. Não à toa, hoje é considerado um dos (senão O) maiores poetas brasileiros, traduzido e admirado em países como Portugal, Espanha e França.

Sua humildade, generosidade, simplicidade e ligação comas coisas da natureza e do cotidiano nos presenteia com uma poesia muito agradável, que remete a vida simples do campo, a inocência da infância, os valores já tão esquecidos.

“Palavras.

Gosto de brincar com elas.

Tenho preguiça de ser sério.”

(O Livro de Bernardo, Manoel de Barros,  Poesia Completa)

Ele brinca com as palavras de um jeito que só os verdadeiros e bons poetas o fazem, ele consegue capturar nossa atenção, nos fazer pensar no que estamos vivendo, não em uma reflexão pesada e difícil, mas com leveza, quase como uma brincadeira, seus pensamentos são singelos, nos fazem a cada leitura esboçar primeiro um sorriso tímido, desses de canto de boca, que finalmente deságuam em um sorriso completo, de satisfação por nos contemplar com tanta beleza poética. Assim é Manoel. Todos deveriam ler Manoel. Eu, inclusive.

“Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comportamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.”

(As Infâncias de Manoel de Barros)

Um dia ou dias depois me deparo com esse vídeo compartilhado pelo site CONTIOutra, o mesmo que compartilhou o curta Lila, que postei tempos atrás pra vocês! E mais uma vez me encantei e não resisti em vir aqui compartilhar toda essa lindeza de trabalho que fizeram inspirados livremente na obra do poeta. A delicadeza da história contada, a construção das palavras que fazem parte da vida de cada um, os sentimentos misturados, a paixão pelas coisas da natureza, pela simplicidade e beleza que se encontra no rio (dia desses ainda contava à uma amiga da minha paixão por escrever sentada à beira de um rio ou do mar, como isso era extremamente inspirador e fazia bem aos pensamentos), na riqueza que se pode encontrar nesse estilo de vida, nas coisas que só quando estamos em paz encontramos. É uma história inspirada em Manoel de Barros, mas o avô da história poderia bem ser o próprio poeta, que nos deixou no ano passado e deixou também um vazio de palavras.

Assistam o curta, tenho certeza que se sentirão sensibilizados como eu me senti. Ele se chama A Língua das Coisas (The Language of Things) e foi produzido por Caraminhola Filmes, do Cineasta Alan Minas e da produtora Daniela Vitorino.

Sinopse via Canal Caraminhola Filmes, no Vimeo:

Em um sítio, distante de tudo, vivem o menino Lucas e seu avô. O avô só sabe a língua do rio, dos bichos e das plantas. Lucas está cansado da rotina de pescar e das histórias inventadas pelo avô, que diz pescá-las no rio: palavra por palavra. Um dia, a mãe de Lucas vem buscá-lo para morar na cidade. Mesmo contrariado, o avô o encoraja a ir para aprender a falar língua de gente. Na escola, a nova língua não entra na sua cabeça. Não cabe. E pra piorar, ele começa a escrever uma língua inventada, só dele. Todos pensam que ele tem um parafuso a menos. Em seguida, sua mãe recebe a notícia da morte do avô. De volta ao sítio, Lucas corre em desespero na esperança de encontrá-lo, na ilusão daquela notícia ser uma história inventada. Mas não é. Desolado, ele se senta a margem do rio, e sem se dar conta, dezenas de palavras são trazidas pela correnteza.

Segue o trailer:

A Língua das Coisas – trailer from Caraminhola Filmes on Vimeo.

E pra quem quiser ver o curta completo, esse é o link. Ele dura 15 minutos, convido vocês a despirem-se de tudo que já assistiram, já leram, e abram esse vídeo com a alma leve e com doçura no olhar, depois voltem aqui e me contem o que acharam!

É comovente, inspirador, tocante no que diz respeito a cultura do olhar de cada um sobre todas as coisas, sobre o que desejamos para a nossa vida, sobre as coisas que acreditamos e aquelas que se esvaem por entre dedos, como a água dos rios ao tentar prendê-la nas mãos. Eles conseguiram transformar a inspiração em poesia viva. E nos aproximar ainda mais de Manoel de Barros.

Eu, de minha parte já digo, Manoel de Barros ganhou meu coração e essa homenagem nada mais faz que confirmar o amor dele pelas palavras sob o olhar do outro.

Colocando algumas obras dele na minha lista de desejos agora!

Um ótima noite pra vocês,

Beijo, beijo…

Signature_Nine

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

4 comentários

ana paula · 14 de julho de 2015 às 08:56

Nine, estou encantada com teu post! Manoel de Barros nunca me apareceu na escola, na lista dos mais vendidos. Foi nos blogs que eu fui sendo pescada com uma frase, um poema com seu nome no final e fui então atrás de saber. Claro, fui totalmente fisgada!
Vou aproveitar para deixar um outro curta, na minha opinião encantador também feito esse que você nos apresentou.
15 min também para se encantar ainda mais. Beijo!

http://despassarado.blogspot.com.br/2015/03/dedicatoria.html

    Nine Copetti · 14 de julho de 2015 às 13:20

    Ana Paula!!! Que lindo o texto, o curta vou assistir em casa, que no trabalho o wifi é mais lento que tartaruga! Mas Manoel pelo visto era um cara muito esperto – sem falar especial – nos fisga e nos permite pescar as coisas mais bonitas da vida – a palavra, a poesia, a simplicidade! Estamos no caminho certo!!! Obrigada pelo teu comentário e pelo rastro de Manoel que deixou para eu seguir… Muito obrigada! Beijo grande! Bem vinda! ☺️

Dérbia Nadja · 13 de julho de 2015 às 22:12

Ficou perfeito seu post querida Nine, falando na linguagem dele simplicidade e encantamento, amei, beijo enorme nesse seu coração sensível.

    Nine Copetti · 13 de julho de 2015 às 22:41

    Muito obrigada, querida és tu por me reapresentar à esse poeta tão cheio de significados! Fico lisonjeada e feliz!
    Beijo enorme de coração!

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