O Natal de uns tempos pra cá virou comércio sem tamanho, perdeu-se nos limites das listas de presentes, da decoração mais cara, quase não se ouve mais falar no verdadeiro sentido do Natal, do nascimento de Jesus ou coisa que o represente. Pois bem, na verdade acho que nem é tão diferente assim de tempos atrás, não, sabem?!?! Mas dá pra dizer pelo menos que o sentimento era outro, a simplicidade reinava e na minha visão de adulta, trazendo essas lembranças, queria compartilhar com vocês como eram meus natais lá nos idos de 1984…

Lá se vão quase uns 30 anos daqueles tempos, de dias quentes embalados por histórias amedrontadoras de lobisomens, varinhas e listas de bom e mau comportamento! Nos reuníamos, eu ajudava a montar nossa árvore que não era grande,  as pessoas decoravam suas casas, suas árvores no quintal e a criançada se preparava para esperar o Papai Noel, todas de roupa nova, de sapato novo, de cabelos penteados, torcendo pra passar pra ele a imagem de boazinhas e comportadas.

No toca-discos, um vinil da Philips tocava canções lindas de natal (em português), nas vozes de crianças como eu, à época com 4 ou 5 anos. Me emocionava já naquela idade.

No embalo das músicas natalinas, lindas de viver, lembro da letra de algumas até hoje, ajudava a preparar a mesa, eu era pequena e ainda não tinha função na cozinha.

Uma poltrona fofa era colocada estrategicamente perto da porta, ao lado da árvore que tinhas as luzinhas já acesas, à espera do Papai Noel que chegava tarde, lá pela meia-noite, com uma vara de marmelo gigante em uma das mãos – para aquelas crianças mais arteiras – e um saco cheio de presentes, na outra mão! Ah, e ele vinha de carroça… Uma carroça decorada, claro, e cheia de outros tantos presentes… deviam ter ali vários sacos de presentes!

Quando ele chegava era um misto de medo e de alegria… Quem sabia de suas próprias arteirices ficava espiado e os mais confiantes já se adiantavam para bater um papo. A senha para a conversa se estabelecer era cantar uma música para o Papai Noel – e ele decidiria se a criança era merecedora de sua atenção (todas eram, no final das contas, cantando bem ou mal). Eu sempre cantava a mesma música, não me perguntem porque, Mistérios da Meia-Noite, do Zé Ramalho  – talvez pela novela que passava na época, talvez pelo clima amedrontador causado pela ameaça constante dos adultos para que nos comportássemos, talvez porque eram noites escuras no meio do nada (morava bem no interior naquela época). E lembrando, eu tinha de 4 pra 5 anos!

Passado o sufoco de cantar direitinho, ganhar abraço e presente do Papai Noel e esperar a melhor amiga superar o sufoco também, íamos todos acompanhá-lo até a prainha (que era um arroio, na verdade, onde passamos alguns verões acampados, história pra outro dia). Seguia-se então uma das cenas mais lindas que eu poderia compreender naquele tempo: adultos e crianças se acomodavam perto da carroça, as crianças junto com o Papai Noel e os pais seguindo a pé. Íamos assim pela estrada de chão batido e parando de casa em casa, nas casas com crianças, e o Papai Noel repetia o ritual e entregava um presente pra cada uma. Eram crianças mais pobres, muitas casas nem luz tinham, nem ceia. Em algumas eu descia e acompanhava de pertinho a ação do Papai Noel e o ajudava a entregar os presentes.

Depois desse momento que era quase mágico, de ver outras crianças felizes (e naquela época, me lembro de ficar feliz com qualquer presente), chegávamos à prainha, Papai Noel estacionava a carroça na beira da prainha, e a criançada – com os pais, tios, avós e quem mais estivesse ali – sentada no chão, contava estrelas, imaginava trenós, renas, árvores e barbas de Papai Noel desenhados no céu, enquanto assistia a festa de fogos de artifícios e sonhava com o próximo Natal.

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

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