DICAS DE LIVROS

Dica de Livro | Vozes de Tchernóbil (e algumas memórias minhas)

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Posted on / by Nine Copetti

“[…] a recordação é uma coisa frágil, , efêmera, não é um conhecimento exato, é uma suposição do homem sobre si mesmo. Isso ainda não é conhecimento, é apenas sentimento.”

Tchernóbil – ou Chernobyl – sempre foi um assunto que me interessou, tanto pela curiosidade pura e simples de um fato ocorrido quando eu estava no “auge dos meus 6 anos de idade”, quanto o  interesse despertado no meu local de trabalho (onde estou exposta à radiação ionizante) sobre tudo que envolva radiação, essa coisa tão poderosa e invisível aos nossos olhos – ou: o quanto a energia nuclear pode nos afetar, para o bem e para o mal e o que aprendemos pós-desastre!

Antes, a curiosidade de quem recém dava os primeiros passos em direção à alfabetização, aprendia a ler e escrever como quem corre contra o tempo, numa ânsia por conseguir logo ler os livros da estante da madrinha, principalmente aqueles beeem grandes ♥ – mal a professora ensinava o “A” e a Aline lá estava de olho no “B” e treinando escondido! Eu estava sempre antenada pra tudo a minha volta e tinha uma fome gigantesca por entender as coisas do mundo, não era uma criança entrometida nos “temas adultos”, mas uma ótima observadora (mais tarde, com a cabeça cheia de informações, costumava confirmar fatos e tirar dúvidas com meu pai – e ele respondia, e eu me sentia muito importante e sabida)! Foi assim que  desde o desastre da usina nuclear eu já “sabia” um bocado do que tinha acontecido e sempre que lia algo a respeito anos mais tarde minhas lembranças (agora já meio fracas) vinham à tona.

De 1986 pra cá, com todos esses registros em mente, quando finalmente eu soube do livro, a primeira reação foi: preciso dele! Só no dia que comprei é que olhei com calma e notei que se tratava de um compilado de memórias, vozes que ainda não haviam se apagado da história e da vida cotidiana de algumas pessoas que estiveram lá ou conviveram com alguém que esteve lá, no dia da explosão e nos que seguiram após o acidente. Vários depoimentos coletados ao longo de muitos anos, alguns revoltados, outros resilientes, de gente que trabalhou na usina ou no “combate” à radiação, trabalhadores soviéticos que acreditavam em seus governantes, engenheiros que acreditavam nos colegas ou que eram silenciados e perdiam a chance de alertar a população sobre os riscos da contaminação por radiação. Sobreviventes, viúvas das vítimas, filhos da radiação.

Pessoas que acreditavam na coletividade, que lutavam como numa guerra para defender o povo soviético. Cada depoimento é um soco no estômago. Cada relato traz a certeza da covardia e da neglicencia de quem governa sem conhecimento ou sem buscar apoio de quem detém esse conhecimento.  Ações mal planejadas, omissão de informação, colocando em risco as pessoas que voluntariamente se ofereciam – em nome da causa soviética – para consertar tudo e preservar a população de perder a sua identidade. Muitos perderam, muitos foram tachados e excluídos do convívio por simplesmente serem de Tchernóbil. Por estarem “contaminados” e oferecerem risco às cidades vizinhas. E isso é só uma palhinha do que encontramos nas páginas desse livro.

A escritora – nobel de literatura em 2015, e merecedora do prêmio – narra de um jeito único a voz dessas pessoas, sabe silenciar e sabe encontrar as perguntas certas na hora exata. Não tem pressa. Não se importa com os insultos – que não são pra ela, obviamente, mas um rancor guardado por tudo que foi omitido e acabou causando mais estragos do que se poderia imaginar. Svetlana Aleksiévitch tem o dom de absorver as histórias que ouve e narrá-las brilhantemente, fazendo a gente se envolver de verdade com cada relato, como se estivéssemos vivendo aquele momento com cada um dos seus personagens.

“Por um lado, a nossa civilização é antibiológica, o homem é o maior inimigo da natureza, e por outro,  é um criador. Transforma o mundo. Cria, por exemplo, a torre Eiffel e as naves espaciais. Só que o progresso exige vítimas, e quanto mais longe for, mais vítimas serão. Não menos que a guerra, isso hoje está claro. A contaminação do ar, o envenenamento do solo. Os buracos na camada de ozônio. O clima da Terra está mudando. E nós nos horrorizamos. Mas o conhecimento em si não pode ser culpado ou incriminado.Do acidente de Tchernóbil, quem é culpado: o reator ou o homem? Sem dúvida o homem, ele fez um serviço ruim, foram cometidos erros monstruosos. Um somatório de erros. […] Tchernóbil foi um golpe para a nossa imaginação e para o nosso futuro. Estamos assustados com o nosso futuro.”

(Slava Konstantínovna Firsakova, doutora em ciências agrícolas)

Demorei um bom bocado para terminar essa leitura. Já sabia que seria bastante tenso, quase lembrando uma guerra, com trechos muito tristes, delicados. Talvez justamente por se tratar de uma coletânea de depoimentos de pessoas que viveram a tragédia e ainda a vivem dentro de si, mesmo depois de tantos anos, exatamente como acontece com as pessoas que vivenciaram uma guerra.

Um livro denso, carregado de memórias, de arrependimentos, lembranças de um cenário que no início até poderia lembrar um campo de batalha, mas que logo depois tudo fica muito igual, afinal a radiação é invisível. Quase ninguém entendia o que se passava ali, naquele território “contaminado”. Nem mesmo os físicos experientes puderam fazer algo concreto.

Enfim, uma leitura para refletir, se colocar no lugar do outro, entender um pouco o lado da história que ninguém ousou contar por muitos anos. Histórias que invariavelmente mexem com a gente, com nossas crenças e nossos limites. Dá pra entender um bocado de coisas sinistras que acontecem desde sempre e que a gente permite que continuem acontecendo por simplesmente acreditar em quem está no poder – nos “representando” – e aceitar que decidam por nós sem refletir as consequências disso. A cegueira para o coletivo e a super valorização para aquilo que me atinge diretamente. Aquilo que não concordo, mas guardo pra mim (as vezes por uma vida inteira) porque ninguém vai querer ouvir mesmo.

“O que é a vida para nós? E o que é a liberdade para nós? Com a liberdade, só sabemos sonhar. Poderíamos ser livres, mas não conseguimos nos tornar livres. […] Durante setenta anos construímos o comunismo, hoje construímos o capitalismo. Antes rezávamos para Marx, hoje rezamos para o dólar. Nós nos perdemos na história.”
(depoimento de Guenádi Gruchevói – deputado do Parlamento bielorusso, diretor da Fundação para as Crianças de Tchernóbil)

Simplesmente leiam.

Um bom finalzinho de domingo e uma ótima semana pra vocês!

1 pessoinha leu, curtiu e recomenda esse post!

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