Gonçalo M. Tavares, nascido em Luanda e criado desde cedo em Portugal, é um escritor consagrado por lá, vem se destacando pelo seu estilo bem peculiar de escrever, mas não só, de conduzir esse estilo prendendo o leitor do início ao fim. Já premiado algumas vezes, vem sendo considerado destaque na literatura contemporânea! Pois nesse romance, pontualmente, posso dizer que me surpreendeu muito sua forma de conduzir a história, de criar redes que se entrelaçam, de costurar histórias que jamais pensaríamos possíveis, sem necessariamente terem – de fato – qualquer ligação.

“(…) e a imagem estranha – outra pessoa diria bela, no entanto não o era, bem pelo contrário, analisada de modo frio era afinal terrível – era que Fried, tal como eu, parecia pedir-lhe desculpa por não ser como ela, por ser normal e por entender as coisas; com consciência plena de que poderíamos sair da nossa tristeza, qualquer que fosse a sua profundidade, mas ela não poderia sair da quantidade de incapacidades que tinha, como que cercada de mundo a mais – porque o mundo se mantém o mesmo para todos, mas a ela sobrava mundo e a nós por vezes faltava.”

Em “Uma menina está perdida no seu século à procura do pai”, Hanna, uma garota de 14 anos, com síndrome de down, está perdida na cidade, a única coisa que traz com ela é uma mochila e uma caixa com fichas educativas, para seu desenvolvimento pessoal (motor, cognitivo…). Marius, um homem aparentemente sem destino certo – estará também perdido? – cruza com ela e sente uma empatia muito forte, uma necessidade de ajudá-la. Os dois partem para uma jornada que eu ainda estou tentando compreender, mas que mais ao final (isso não chega a ser um spoiler) fica mais claro pra mim, pelo menos de um certo ponto de vista.

Hanna não tem registro algum de sua origem ou de sua família, seu único bem é a tal caixa e as poucas palavras que consegue comunicar, como seu nome, algumas características pessoais e o fato, claro, de estar em busca do pai (mas que não pode contar a ninguém, pois senão cortam-lhe a língua e arrancam-lhe a cabeça – e diz isso a principio com medo, depois, rindo-se)!

Marius também parece ser um homem sem identidade, misterioso, bondoso certamente, dentro de suas possibilidades, ou então não estariam agora servindo um de companhia ao outro nessa jornada um tanto incerta.

A partir desse encontro os dois partem “em busca de vestígios” do pai de Hanna, com Marius sempre fazendo de tudo para cuidar dela, fazer seus exercícios – e não consegue ainda explicar bem o porque disso!

No caminho cruzarão com diversos personagens tão ou mais curiosos e intensos que eles próprios. E é nesse ponto que tento entender melhor a intenção do escritor. Há uma cidade caindo aos pedaços, em ruínas, pessoas circulam num ir e vir quase sem sentido, e percebe-se ali um sentimento de que não só a cidade sofre com o pós-guerra, mas também aqueles seres que perambulam, que tentam levar uma vida praticamente impossível de seguir seu curso normal.

Depois de finalizar minha leitura, sinto receio de relatar aqui muitos detalhes, então vou me apegar às observações:

  • Um hotel sem nome onde os quartos levam nomes dos campos de concentração alemães. Um hotel construído por judeus com base exatamente no mapa desses campos, na disposição exata deles no mapa cartográfico.
  • Um homem que traz nas costas uma marca para que jamais alguém questione seu lugar no mundo, uma tatuagem feita a lâmina pela esposa, um mapa de todas os países envolvidos na Segunda Guerra, onde no lugar do nome do paí está escrito “judeu” no idioma respectivo. Uma prova do orgulho das suas origens e uma tentativa de deixar registrado ali um momento que ninguém deve esquecer, mesmo que a morte chegue, aquela marca permanecerá para quem ouse duvidar.
  • Um personagem apelidado de Terezín (para quem já leu algo sobre a Segunda Guerra e o nazismo, deve lembrar que era um “gueto-modelo” por onde passaram milhares de judeus), já bem velhinho, que guarda na memória bem mais que histórias de guerra.
  • Um fotógrafo que carrega além de seu equipamento fotográfico, um álbum com fotos de pessoas com anomalias diversas. E que fica vidrado em Hanna, chegando a ser inconveniente em sua presença impositiva.
  • Um dono de antiquário com uma loja tão escondida e tão no alto que dá vertigem.
  • Um artista de miniaturas – cujos olhos são completamente independentes, como duas pessoas diferentes: um aberto para o mundo, outro minucioso para a arte – que carrega um pássaro raro morto em uma caixa refrigerada, na esperança de salvá-lo – ou preservar sua memória mesmo que seja empalhando-o.

Eu realmente fiquei muito surpresa com essa leitura e vou seguir tentando compreender como Gonçalo construiu um romance de múltiplas pontas sem se perder, dando um sincronismo agradável de acompanhar, quase intuitivo mas também instigante, porque me fez não desejar que a história chegasse ao seu final.

Ele traz pra gente um outro lado pouco explorado do pós-guerra, de como os sobreviventes daquele período assombroso vivem seus dias, com que pensamento acordam todos os dias, tendo que lembrar e relembrar tudo pelo que passaram, todos os entes que perderam, todas as marcas que trazem não apenas no corpo, mas também na alma.

São criaturas marcadas pra sempre por uma guerra que não era delas, mas elas estavam lá. Personagens diferentes, estranhos aos olhos do mundo atual, fragmentos de vida, cada um com sua jornada guardada na memória e suas dores gravadas no coração.

É nesse cenário urbano um tanto periférico de uma Berlim pós-guerra que os dois irão viver juntos alguns de seus dias – um pouco à procura do pai de Hanna, um pouco se esforçando para dar seu melhor a alguém que depende do seu cuidado e da sua proteção e ao mesmo tempo tentando fugir de si mesmo, de suas sombras.

Não esperem flores – e eu preciso deixar isso claro aqui: nem romances amorosos, menos ainda finais felizes. Esperem descrições minuciosas, detalhadas, personagens intensos, alguma emoção e algo que temos falado muito nos últimos tempos: empatia. O livro é ao mesmo tempo um afago e um tapa, os dois lados da moeda para quem quiser jogar pro alto e ver no que dá.

Foge bastante dos romances tradicionais e justamente por isso merece uma leitura cuidadosa, reflexiva, interessada, como uma viagem que fazemos para dentro de nós mesmos.

PS: Se alguém já leu, vamos conversar? Comenta aqui as tuas impressões, quero muito saber o que achou…

Então é isso, um livro tão pequeno e denso ao mesmo tempo.

Boas leituras ♥

Uma ótima semana!!!

Beijos,

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1 pessoinha leu, curtiu e recomenda esse post!

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

4 comentários

Ana Paula · 27 de julho de 2016 às 17:27

Oi Nine!
Eu li uma crítica sobre esse livro recentemente e também sobre a obra desse autor. Não eram elogios imensos nem nada, mas deu para notar que ele tem boa reputação.
Me interessei pela história por uma das personagens ter síndrome de down. Tenho um primo órfão com a síndrome que mora com minha mãe há muitos anos e a filha da minha melhor amiga nasceu há poucos meses tb com a trissomia. Por isso me interesso por esse universo, apesar de o livro não ser exatamente sobre isso. Mesmo assim é uma história nova e diferente não é?!
Bjks

    Nine Copetti · 27 de julho de 2016 às 21:07

    Ana, sim! Me surpreendeu a leitura por abordar não só a trissomia, mas diversas situações de pessoas consideradas no mínimo “estranhas”, inclusive a Hanna, com Down, pena ela não ser mais explorada como personagem, com certeza o livro renderia mais! Pessoas com a trissomia são tão especiais no melhor sentido, tem um coração doce, uma alegria própria deles, um sorriso sempre pronto pra quem se aproxima!

    Um beijão pra ti! <3

Claudia · 25 de julho de 2016 às 23:03

Nine eu amei o livro!
Discutimos no nosso clube da leitura e a discussão foi sensacional.
Vc definiu bem, um livro denso! E intenso!
Fiquei apaixonada pela escrita do Gonçalo e acho que nao é à toa que o cara é tão premiado.
Bjks mil

    Nine Copetti · 25 de julho de 2016 às 23:44

    Ai, Clauo! Eu queria tanto ter lido a tempo pro clube, mas nunca consigo dar conta dos prazos! Ele é bem diferente, muito interessante, como se retratasse fragmentos de sobreviventes da guerra, um outro lado da história, os bastidores de quem ficou pra contar sua versão da história, né?

    Fiquei desejando ler mais coisas desse escritor, com certeza ele tem méritos nos seus destaques.

    Um beijão e obrigada (li algumas pessoas que não curtiram a leitura e queria muito poder conversar sobre o livro pra entender todo mundo que leu)!

    <3

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