Bom dia!!! Animados pra começar mais uma semana?

Então, que tal começar uma leitura nova essa semana escolhendo um livro com uma história arrebatadora – mas sem clichês e sem forçar a barra da gente – dessas que ficam por um bom tempo martelando na nossa cabeça e aquecendo nosso coração, heim? Pois esse livro é tudo isso e mais um pouco! Eu estava só esperando ele entrar em oferta pra trazer pra casa, e quando trouxe, ainda demorei um tempo pra decidir que era a vez de lê-lo. Pois bem, quando resolvi que era a hora, gente, não consegui largar enquanto não terminei. E vejam bem, eu era obrigada a ficar sem ler enquanto trabalhava ou dormia, né… Então, foi bem difícil quando estava chegando ao fim, eu simplesmente não queria que ele acabasse. Detalhe: com 526 páginas! Um romance encantador, sublime, delicado, onde o narrador nos conduz habilmente pelos capítulos, nos fazendo refletir a cada instante. Tá com tempo? Então vem comigo, que a história de hoje é um bocadinho longa…

“Abram os olhos e vejam o máximo que puderem antes que eles se fechem para sempre”

Toda luz que não podemos ver conta a história da menina Marie-Laure e seu pai, chaveiro no Museu de História Natural de Paris. Eles vivem pertinho do museu e suas rotinas são completamente alteradas depois que Laure perde a visão, aos seis anos. Usando suas habilidades, o pai de Laure constrói uma maquete do bairro onde moram e a partir dele, passa a ensinar a pequena a memorizar caminhos através desse projeto. Laure aprende rápido e logo já está se movimentando com desenvoltura pelas ruas do bairro. Mas o pai ensina muito mais, obviamente, ensina Marie-Laure a enxergar o mundo com os olhos do coração, ao mesmo tempo que a ensina a se defender dos perigos do mundo.

Conta também a história de Werner e sua irmã Jutta, alemães, órfãos, que vivem na Casa das Crianças em Essen, na Alemanha, distante quase 500 km de Paris. Duas crianças praticamente sem expectativas de uma vida decente. Os meninos são criados para trabalhar nas minas – e viver tão pouco quanto o pai de Werner e Jutta viveu – e as meninas para se casarem e cuidarem de suas casas. Porém, Werner também é um menino muito inteligente, curioso, e após encontrar, com sua irmã, um rádio no lixo, se esforça para fazer com que ele funcione, sintonize estações e eles possam ouvir música e as aulas de um professor francês sobre física, sobre grandes cientistas e suas descobertas. Ele aprendeu francês com Frau Elena, a cuidadora deles, uma missionária muito carinhosa, que conta histórias e cantarola músicas folclóricas francesas para as crianças daquele lugar.

“- As pessoas vão dizer que você é pequeno demais, Werner, que você veio da ralé, que não deveria sonhar grande. Mas eu acredito em você. Acho que você vai realizar feitos incríveis.” (Frau Elena, para Werner – pág. 33)

Todos os anos, em seu aniversário, Marie-Laure é presenteada pelo pai com uma caixinha-mágica que ele faz questão de criar, sendo que o desafio aumenta de dificuldade a cada ano. E ela precisa desvendar a abertura da caixinha para poder receber seu presente (romances longos em braile). O desafio não é maior do que sua satisfação ao entrar em contado com clássicos da literatura traduzidos para o braile – especialmente os romances de Julio Verne, pelos quais ela se apaixona. Ela devora A Volta ao Mundo em Oitenta Dias e tempos depois, Vinte Mil Léguas Submarinas.

Sinopse:

Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Marie-Laure está com doze anos quando Paris é ocupada pelos nazistas,  e pai e filha se refugiam na cidade de Saint-Malo, onde o tio-avô de Marie-Laure vive em uma enorme casa à beira-mar. Eles levam consigo o que talvez seja o mais valioso e perigoso tesouro do museu.

Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com sua irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, Werner acaba se tornando especialista em montar e consertar esses aparelhos cruciais à época, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure.

Em uma história de amor e bondade, as vidas de Werner e Marie-Laure vão se encontrar em tortuosas circunstâncias, enquanto ambos tentam sobreviver às atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Um suspense arrebatador, contado de forma fascinante, Toda luz que não podemos ver é um romance sobre generosidade e sobrevivência e sobre o que há além do mundo visível.

Aos doze anos, Marie-Laure sente a tensão presente em seu pai e por toda cidade ouve-se burburinhos sobre a proximidade da guerra, tão logo os nazistas invadem Paris, ela e o pai viajam ao encontro do tio-avô dela, em Saint-Malo, litoral da França, e lá se refugiam no casarão imenso de quatro pisos, muitos quartos e um sótão que à primeira vista pareceria um alvo fácil, mas que pode acabar salvando a vida de Marie-Laure. Detalhe, eles não fazem ideia, mas talvez estejam carregando consigo o maior tesouro do Museu.

O pai de Marie-Laure é uma figura muito interessante como personagem e nos faz compreender a importância de alguém que guie, oriente, eduque e dê amor na mesma proporção, uma pessoa doce, terna e muito sábia, que entende sua responsabilidade na vida da filha.

Como estão em uma nova cidade, ele sente a necessidade mais uma vez de orientá-la naquele lugar novo e totalmente estranho para ela. Ele constrói então uma nova maquete. Para isso, dia após dia, durante semanas, ele faz vários trajetos pelas proximidades do bairro onde estão vivendo, anotando cada detalhe, cada bueiro, cada esquina, numa planilha. A cada volta pra casa, ele aplica as novas informações à maquete. Sendo um estranho naquele lugar, as pessoas começam a desconfiar – e em tempos de guerra, nunca sabemos quem é confiável de verdade – e ele é denunciado por um dos vizinhos como espião. Levado preso, Marie-Laure tem mais um desafio pela frente, sobreviver à tristeza e a saudade do pai. Mas ela é uma menina extremamente inteligente, muito perspicaz e sua cegueira quase passa despercebida por sua desenvoltura. E ela vai além daquilo que as pessoas acreditam ser o seu limite.

A guerra cada vez se aproxima mais, barulhos infernais, pessoas escondidas em suas casas, ou fugindo para onde é possível fugir, outras sendo levadas a força, num cenário que já conhecemos bem – tanto em livros de história quanto em outros romances dessa temática. O autor não se detém muito nisso e eu como leitora, agradeço. Sem a presença do pai, e com o tio-avô cada vez mais isolado em suas “lembranças”, recolhido no quarto, Marie-Laure precisa se virar, com o racionamento e cupons escassos, ela faz o que pode. E ela também tem um rádio, assim como Werner, e aprende com o tio-avô alguns segredos, inclusive como transmitir música, aulas, notícias (e pedidos de socorro) por eles.

Werner tem logo seus talentos com o rádio reconhecidos, e é assim que ele vai parar em uma escola bem conceituada onde ele tem esperanças de escapar da vida ingrata que seu pai levou. Mas é por esse caminho que também, quase involuntariamente, ele acaba na Juventude Hitlerista e vai perceber que o mundo não é tão bonito quanto parece. Ele faz seu trabalho com perfeição, não deixa de cumprir suas tarefas, mas vai se dando conta do que a guerra é capaz de fazer com as pessoas e mais, que há pessoas no mundo que já nasceram com a maldade intrínseca à elas. Essa é a pior parte. Sem falar que ao sair do orfanato para estudar e trabalhar para o exercito alemão, ele deixa a irmã caçula pra trás. Tenta se corresponder por carta – ano após ano – mas ela parece realmente magoada por ter sido “abandonada” por ele. Por ser deixada para trás sem a menor expectativa de ter mais sorte na vida.

“Uma criança nasce, e o mundo se apossa dela. Arrancando coisas dela, alojando coisas nela. Cada porção de comida, cada partícula de luz entrando no olho – o corpo nunca pode ser puro. Mas é nisso que o comandante insiste, o motivo pelo qual o Reich mede o nariz de cada um deles, avalia a cor dos seus cabelos.”

Quando Werner recebe sua missão para ir a Saint-Malo para tentar interceptar sinais de rádio com mensagem dos Aliados, Marie-Laure já está tentando se esconder de uma figura que aparece para tentar recuperar uma pedra capaz de fazer milagres (como curar doenças incuráveis). A tal pedra milagrosa, retirada do Museu onde seu pai trabalhava (na verdade eram três pedras distribuidas entre três pessoas, sendo que ninguém sabia qual era a verdadeira), na verdade estava em uma das casinhas da nova maquete feita pelo seu pai quando chegaram ali, e desde que seu pai foi levado, ela carregava a casinha com ela, no bolso do vestido.

Em uma de suas saídas furtivas, Marie-Laure vai cruzar com Werner, mas não vai perceber devido sua cegueira. Ele vai acompanhá-la de longe, para saber onde ela vai… Onde ela mora.

Em uma dessas interceptações de sinal, Werner ouve a transmissão dela, o pedido de ajuda – e felizmente seu companheiro de missão está dormindo quando isso acontece – e ele então trava uma missão particular, que é tentar descobrir de onde vem o sinal, e assim tentar livrá-la do perigo, do comandante que está em busca da pedra e que para consegui-la é capaz de fazer alguma maldade com a menina.

Sem me aprofundar muito mais que isso em detalhes – e juro pra vocês que o romance é muito mais do que esses pequenos trechos que descrevi – Toda luz que não podemos ver me lembrou muito os romances filosóficos de Jostein Gaarder (especialmente O Mundo de Sofia e O Dia do Curinga), pela forma como as histórias se entrelaçam, como tudo se desenvolve em perfeita sintonia, mesmo que os capítulos não estejam cronológicamente ordenados. Anthony Doerr consegue ser quase musical na sua narrativa, além de trazer elementos que lembram um mundo fantástico, como quando ele descreve o sótão e a porta secreta do quarto do tio-avô de Marie-Laure. É um romance genial, mágico, encantado, que permite misturar fatos cotidianos, suspense e mistério de uma forma singela, quase inocente.

“Novamente ela abre a casinha da maquete e coloca a pedra na palma da mão. O que aconteceria se a deusa desfizesse a maldição? Será que os incêndios cessariam, será que a terra se cicatrizaria, será que as pombas voltariam aos parapeitos das janelas? Será que Papa retornaria?”

O amor incondicional do pai pela filha, acentuado pela chegada da cegueira, o cuidado, o carinho e o amor que ele tem por ela, que vai além das suas responsabilidades, aquela doçura no educar, no mostrar os melhores caminhos – literalmente, inclusive, ou mostrar como pode-se continuar sensível mesmo em meio a crueldade de um mundo em guerra.

Bom lembrar que existe um certo receio já quando escolhemos romances que abordam temas como guerras e/ou doenças graves, parece que virou mania entre os escritores mais jovens, como se fosse um nicho a ser explorado, mas que se tornou um clichê, tirando a qualidade de muitos desses romances (parece que foram produzidos em série). Isso acaba criando um vício, lugar-comum e para quem é apaixonado pelo tema, por romances verdadeiramente baseados na história mundial, à leitura desses romances logo se percebe o quanto são rasos e cheios de truques. Mas digo logo que não é o caso desse romance, bem longe disso, o escritor conseguiu fazer realmente da guerra apenas o cenário de fundo, daqueles que não interferem em nada a essência da história central. Sem contar o viés juvenil, pois a condução da história é tão encantadora que é capaz de conquistar leitores muito jovens com facilidade, mesmo com o fator “muitas páginas”!!!

Toda luz que não podemos ver  é um romance de ficção, mas se encaixaria perfeitamente no perfil dos romances filosóficos, na minha opinião. Ele traz essa luz que não percebemos no nosso cotidiano, esses valores tão importantes e tão esquecidos pela pressa, pelos compromissos e pelas relações sem verdadeiro interesse, sem comprometimento. Fala de amor na sua forma mais pura, fala de confiança, de lealdade.

Além do pai, o tio-avô de Marie-Laure tem características que nos apaixonam. Ele tem uma sensibilidade aguçada e na ausência do pai dela, se encarrega de transmitir seu conhecimento. Ele ensina coisas do mar, da terra e do ar, biologia, história, lê livros e mostra tudo que aprendeu durante todos os seus anos de vida.

Werner só tem cenários de tristeza nesse período, as mortes causadas pela guerra não passam incólumes por seus jovens olhos, por seus reflexos e reflexões. Ele sente, e sente muito, mas precisa seguir adiante e cumprir ordens. Há um momento do romance em que ele percebe que o que pareciam sacos dentro dos trens são na verdade cadáveres. E vai se dando conta do inferno que é essa guerra e que ele só queria estar estudando engenharia para ser alguém melhor na vida. Mas a missão dele, depois das transmissões que descobriu, é salvar Marie-Laure custe o que custar.

O cenário de Saint-Malo, o casarão onde viveu os últimos dias de guerra, antes de os alemães recuarem, o subsolo de um lugarzinho secreto para Marie-Laure, onde ela encontra e observa caramujos, o barulho do mar e a impossibilidade de vê-lo, os bombardeios apenas sentidos, sem ter ideia de onde estão caindo… Todo aprendizado dessa menina, todas as pessoas importantes que passaram em sua vida, um amor primeiro amor em meio a incertezas e desesperanças. As amizades que marcam uma vida inteira na cabeça de um jovem soldado que não queria ser soldado, as amizades que se foram antes mesmo de se ter certeza que eram amizades. Os laços que se desfazem com facilidade e que para reatar parecem uma missão muito difícil.

“Dormem apesar do barulho, apesar do frio, apesar da fome, como se estivessem desesperados para ficarem à parte do mundo desperto pelo maior tempo possível.”

Quando o romance vai chegando aos capítulos finais, tudo vai se delineando e recebendo arremates que acabam com a gente. Só de lembrar me bate uma ansiedade, uma tristeza, uma dor muito grande por tudo que os personagens passaram. O encontro de Werner e Marie-Laure é algo que ficará pra sempre na memória, uma marca difícil de remover. Todas as experiências que viveram, todas as perdas, os sofrimentos por naquele momento não terem a liberdade de ser quem sonharam ser é algo que nos toca profundamente e claro, nos faz refletir o quando a vida é frágil e o tanto que damos valor ao que na verdade nem importa tanto assim. E como deveríamos cuidar mais das pessoas que amamos e não queremos perder. Um romance sobre bondade, sobre ver o mundo através de qualquer máscara, sobre gratidão. E isso deve-se em grande parte pelo talento do escritor em descrever cada cena como se realmente estivesse sendo percorrida por alguém desprovida de visão. Sons, sabores, sensações que enriquecem o texto de tal forma que não tem como não nos prender.

Termino esse post gigante  em meio aos muitos suspiros e uma vontade gigantesca de reler esse livro. Acho que vou demorar a encontrar algo parecido.

Se vocês conseguiram ler até aqui, tenho certeza que o próximo passo será lerem Toda luz! E para quem é curioso como eu, procurem por Saint Malo no Google, as imagens são de arrepiar, exatamente o cenário descrito por Anthony e por onde Marie-Laure andou.

 

Agora sim, uma ótima semana pra vocês, com ótimas leituras também!!!

Beijos,

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

2 comentários

Graziella · 27 de maio de 2016 às 22:39

Não estou sabendo lidar com esse post Nine!!!!! Intenso como o livro, inesquecível e arrebatador! Vc arrasa!

    Nine Copetti · 27 de maio de 2016 às 23:25

    É meio como O Rouxinol, né? A gente pegou um amor por esses livros que fica impossível não querer ler mais um pouco, dá uma saudade dos personagens, uma vontade de voltar no tempo, de viver no tempo deles e consolá-los, sei lá… Acho que a gente precisa ler tudo de novo! <3

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