Como eu contei pra vocês, agora sou assinante da TAG Livros, um Clube de Livros com curadoria literária de diversos escritores e intelectuais do mundo inteiro! Falei tudinho sobre isso AQUI!

No mês de Abril a curadoria foi da Letícia Wierzchowski e o livro escolhido por ela para nós foi Stoner, de John Williams. Bem, eu não conhecia nem o livro, nem o autor… Mas confio muito nas referências literárias da Letícia e mais ainda depois da paixão com que ela falou sobre essa indicação. Claro que mal o livro chegou eu já tratei de começar a ler…

” Stoner é a história de vida de um homem entre as décadas de 1910 e 1950: William Stoner, filho único de camponeses humildes, quase por acaso descobre sua paixão pelos estudos literários e se torna professor universitário. Em uma prosa linear e límpida, narram-se o progressivo afastamento de Stoner da própria família, as relações complicadas com os colegas, as amizades tragicamente marcadas pela guerra, a difícil vida conjugal, o impossível amor clandestino por uma professora mais jovem e o encontro com a morte. Stoner reage às provações da vida com aparente impassibilidade e silencioso estoicismo, emergindo como um inesquecível e trágico herói da vida cotidiana.”

Para começar a história, posso dizer que esse é um livro para quem é apaixonado por literatura em todas as suas formas, ou melhor,  na sua forma mais pura. O caminho que ela faz, seus estilos, sua construção. Stoner é bem mais que um romance. William Stoner é bem mais que um simples personagem. Sua vida vai muito além do cotidiano. Apesar da história aparentar ser unicamente sobre sua jornada – uma jornada que ele não trilha, mas é levado por ela pela vida. Exceto quando Shakespeare entra na sua vida, quando ele entra em contato com o mundo da Literatura Inglesa e do ensinar.

Stoner é um cara do interior, filho único, além do estudo normal, a maior parte do seu tempo ele passa ajudando os pais na lida do campo, no trabalho braçal e em casa, ajudando a mãe nas pequenas tarefas domésticas. Uma rotina nada fácil – nem para ele, menos ainda para seus pais, dia a dia, faça sol ou chuva. Os estudos estavam em segundo plano, ele estudava em uma escola rural, há quilômetros da fazenda onde vivia, mas ele era um garoto empenhado, e os pais, como quase todos os pais do mundo, se deram conta logo de que precisavam encaminhar o filho para um futuro melhor que os que eles tiveram, longe das misérias do campo.

“À noite os três sentavam-se na pequena cozinha iluminada por um único lampião de querosene, com os olhos fixos na chama amarela; muitas vezes, durante a pausa entre o jantar e ir para a cama, os únicos sons que podiam ser ouvidos eram de um corpo se mexendo com dificuldade numa cadeira e o ranger mouco da madeira cedendo cada vez mais sob o peso dos anos.”

Essa narrativa sobre a vida humilde e sacrificada dos pais e dele próprio, as descrições da casa, da rotina, das agruras e do relacionamento de Stoner com os pais é um tanto breve e gerou uma certa angústia enquanto eu avançada os parágrafos. Talvez por também ter vindo de família humilde, de ter vivido um pouco dessa vida de interior e principalmente de também ter que deixar tudo para trás e ir em busca dos sonhos, de melhores condições de vida, de certa forma abandonando costumes e valores que são fundamentais para qualquer ser humano. Eu me senti tensa, e agora, ao voltar ao tema, me bate uma saudade de tudo que abri mão ao vir pra cidade.

Assim, num certo dia, a oportunidade de estudar na cidade, de ir para a universidade, surgiu. Primeiro, como uma desculpa para Stoner se aperfeiçoar nas coisas do campo mesmo, cursar “Ciências Agrárias” para que retornasse e pudesse aplicar seus conhecimentos para facilitar a vida dos seus pais. Seriam quatro anos. Quatro anos em que os pais teriam que se virar sozinhos para cuidar dos bichos, das plantações, da fazenda e de si mesmos.  E assim foi, Stoner partiu para Columbia. Mas como a vida costuma pregar mais peças do que esperamos, com ele não foi diferente… E o rumo que ele esperava simplesmente virou a esquina e tomou outras formas.

“Não imaginei que ia acabar assim. Achei que estava fazendo o melhor que podia para você, mandando-o para cá. Sua mãe e eu sempre fizemos o melhor que a gente podia para você.”

E assim, no meio do curso de Ciências Agrárias, Stoner teve acesso a um outro mundo possível, conheceu a poesia de Shakespeare. E se viu mudando de curso – e mudando completa e definitivamente o curso da sua vida. Foi estudar Literatura Inglesa, fez mestrado, fez doutorado, publicou livro. Se empenhou ao máximo, estudou tudo o que estava ao seu alcance. Sugou todo o conhecimento que a universidade lhe ofereceu. Virou professor. Sua vida agora era a de ensinar, de compartilhar tudo que havia aprendido e que ainda viria a aprender. Ficou conhecido entre seus alunos. Era o mais requisitado para ser orientador.

Passou a ver muito pouco seus pais, que contrataram uma pessoa para ajudá-los. Eles ficaram velhos, adoeceram. E todo aquele processo doloroso de perda estando longe de casa se fez presente. E toda aquela dor e angustia por abandonar suas raízes veio à tona novamente. Serio, esse romance quebra qualquer padrão, acaba com nossas forças, nos reduz a nada. E nos faz pensar em tudo o que vivemos, na vida que levamos, nos permite refletir sobre as nossas ações, menores ou maiores, que podem fazer com que a vida mude completamente, fazendo até mesmo com que a gente esqueça porque veio até aqui.

Antes disso, ainda, Stoner, considerado alguém introspectivo e antissocial, se apaixona (ou pensa que se apaixona) por uma moça, eles se casam como se isso fosse uma dor de barriga a se resolver. E aí começa um martírio para quem simpatiza com ele. A gente se depara com uma vida de completa passividade e um certo excesso de resiliência, se é que isso é possível. Sua vida conjugal deixa a desejar, mas ninguém admite. E ele segue sua vida na universidade. Seu refúgio são as aulas, os livros, os alunos. Passa pela guerra praticamente imune, sempre focado na sua maior paixão. A esposa, Edith, parece ter sérios problemas psicológicos, intercalando seu humor entre a histeria e a depressão, ora fingindo estar completamente doente e dois segundo depois, pronta pra dar uma festa para 300 pessoas.

Quando nasce a filha deles, parece que será um sopro de esperança, com Edith ignorando a filha, Stoner passa tempo o bastante com ela para criar um elo que parece aliviar o peso do seu casamento. Mas isso logo acaba, também, pois sua esposa parece sempre se encarregar de ir destruindo os vínculos que ele vai criando. Não só a filha é afastada do convívio dentro da própria casa, como também os espaços que ele mais gosta lhe são arrancados sem dó nem piedade. E com toda essa afronta, ainda assim, ele se mantém complacente, inexpressivo, como se estivesse apenas passando arrastado pela vida, sem que nada importasse. Nada além das suas aulas. Nem mesmo a filha. Ele sentia que as coisas e pessoas lhe eram tiradas, mas aceitava e seguia.

Na maior parte do livro a sensação é de entrar nas páginas e chacoalhar Stoner, gritar nos seus ouvidos para que ele se abra para a vida, enfrente suas sombras, se permita viver além daquilo que ele acha justo para si. A irritação com Edith é muito elevada e ali também dá vontade de agitá-lo, abrir seus olhos para o que ela faz. Parece que em cada ação as reações de Stoner permanecem congeladas. Como se nada o abalasse, mas algo por dentro devia corroê-lo, não era possível viver uma vida toda tão passivamente.

Quando, no alto dos seus 40 anos ele finalmente parece ter encontrado o amor, novamente todas as forças contrárias o ameaçam e ele mais uma vez, com todo o seu estoicismo já conhecido à essa altura da leitura, abre mão, sem espernear, sem questionar, sem nem mesmo tentar um outro caminho que o faça viver plenamente.

Com a filha já adolescente e se mostrando tão problemática quanto a mãe, a esposa cada vez mais fora de si, a amante indo para bem longe e os colegas se afastando, sem controle algum da sua vida para além da universidade e de seus alunos, Stoner começa a escrever seus capítulos finais.

Eu nunca imaginei que leria uma história tão triste, quase deprimente e ainda assim, tiraria algo de bom dela. Toda essa jornada de um cara que pareceu passar pela vida quase imperceptível, todo empenho para não deixar marcas, rastros, realizações… Ou não.

Na verdade, se olharmos com um pouco mais de carinho para essa história, Stoner seguiu fielmente seu amor maior: a literatura. Foi firme em todos os momentos que exigiriam que mudasse seu curso da vida, que abrisse mão de algumas coisas em prol de uma provável felicidade. A única coisa certa da sua vida inteira foi a Universidade, foram seus estudos em literatura, foram suas aulas, o tempo passado entre seus livros. Até o final da sua vida, são eles – os livros que o ensinaram, que o guiaram e aquele que ele próprio escreveu – que lhe deram conforto e fizeram companhia.

“Lia ao acaso, para seu próprio prazer e deleite, escolhendo entre os livros que estivera esperando anos para ler. Mas a sua mente não se deixava levar aonde ele queria que fosse: sua atenção se desviava das páginas à sua frente, e descobria-se olhando fixamente para o nada. Era como se, momento a momento, sua mente se tivesse esvaziado de tudo o que sabia e sua vontade se exaurido de sua força. Ele sentia às vezes que era uma espécie de vegetal, e ansiava por algo – até mesmo a dor – que o cutucasse, para fazê-lo se sentir vivo.”

Ainda estou tentando me recuperar da leitura e da forte vontade de sair por aí sacudindo alguns Stoners da vida. Mas, como William, será que eles querem ser sacudidos?

Será que queremos sair da nossa zona de conforto, quebrar algumas regras, sofrer perdas em prol de um sonho maior? Quanto estamos dispostos – na vida – a abrir mão, para viver o que tanto esperamos viver?

“Os dedos relaxaram, e o livro que seguravam se moveu lentamente e depois rapidamente ao longo do corpo imóvel, caindo, por fim, no silêncio do quarto.”

Pode parecer que escrevi demais (bem, esse de fato é um problema que tenho, né), mas o livro é grandioso e repleto de pequenos detalhes que só numa leitura atenta são capturáveis. Os sentimentos contidos em cada parágrafo podem ser entendidos/traduzidos de tantas formas, que cada um de vocês que se dispor a ler, terá uma visão mais interessante que a outra. Os insights são infinitos.

Acho que fecho esse texto acreditando que essa é uma daquelas leituras que – assim como poucas – ficam gritando dentro da gente por dias, meses a fio. As reflexões valem a pena, o livro vale cada página lida, se tivermos paciência com ele. Um livro para amar e odiar. Para – quem sabe? – sacudir a nossa própria vida!

Boas leituras e uma ótima semana!!!

Beijos,

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

2 comentários

ana paula · 16 de maio de 2016 às 08:56

Nine, eu já tinha gostado quando, anteriormente, você citou citou este livro na Tag, sobre tutoria da Letícia. Agora, lendo a tua experiência com o livro, estou certa que quero lê-lo também.
Ah, e escreva muito sim! É tão bom!
Beijos
@retrateria

    Nine Copetti · 16 de maio de 2016 às 10:09

    Oi, Ana! Ah, que bom que tu gostou, escrevo pra caramba, tento me policiar, mas quando vi lá se foram mil linhas, hahaha!
    Pois é, essa foi uma leitura bem diferente, sabe, tensa, mas como de tudo tiramos sempre algo de bom, acho que todos deveríamos conhecer essa figura chamada Stoner! Deixa na tua lista de leitura, e quando chegar a vez dele, me conta!
    Um beijo grande, uma ótima semana pra ti! ;)

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