Esse é o primeiro livro da escritora gaúcha Letícia Wierzchowski que leio. Assisti à “A Casa das Sete Mulheres”, corri pro cinema quando estreou “O tempo e o vento”, mas confesso que nunca havia me interessado por seus romances. Pura falta de conhecimento da preciosidade dessa autora que já acumula muitas obras em seu currículo.

SAL foi lançado este ano e logo que vi a novidade pelo Facebook pensei: preciso começar a prestigiar nossos escritores locais. Ficamos constantemente presos no mundo dos romances estrangeiros, basta dar uma passada rápida em blogs que costumam resenhar livros ou perguntar para algumas pessoas próximas, quantos livros de escritores brasileiros já leram! Bem poucos, podem conferir!

Bem, eu trouxe o livro pra casa junto com mais algum,  provavelmente, não me lembro agora, e guardei na pilha dos “livros pra ler algum dia”, e alguns dias depois já coloquei ele na bolsa e fui trabalhar.

(abrindo um parênteses) Pra quem não sabe, eu tenho um ritual matinal muito curioso: chego no hospital quase uma hora antes do meu horário de entrar pra trabalhar, vou pra cafeteria, peço meu suco natural com torradas, escolho o cantinho mais silencioso e aconchegante e tenho uma horinha dedicada a leitura antes do meu dia de fato começar. Coloco na mesa o livro da vez, um marca-texto, um caderno e uma caneta, além do celular, claro… Quem me segue no instagram de vez em quando se depara com meu lanche e o livro que estou lendo! (fechando um parênteses e voltando pra terra)

Comecei como sempre, lendo as orelhas, a capa e contra capa, analisando a textura, as páginas, o estilo gráfico e as dedicatórias. Não sabia bem porque, mas senti que seria uma leitura especial.

E foi.

Letícia superou todas as minhas expectativas com um romance delicado, diferente, poético, sensível e conseguiu me prender desde a primeira página. E mais uma vez, confesso pra vocês, o início foi mais por curiosidade mesmo, pelo estilo de escrita com o qual me deparei. Algo bem diferente do que estou acostumada, um enredo apresentado aos poucos, caracterizado e servido ao leitor com cuidado, como que apresentando um tesouro.

Quando entendi um pouco melhor a ideia de como as histórias foram interligadas a leitura finalmente fluiu, me apeguei aos personagens, chorei, sorri, me emocionei e torci!

Os personagens foram traçados por cores, como em uma tapeçaria, cada um deles tinha sua cor e suas características poeticamente determinadas. Essas cores (ou esses personagens) se cruzavam de várias formas, nos dando a chance de tecer junto com eles as histórias de uma grande família e suas dores, mais que suas alegrias.

O que mais me encantou foi a personagem de Flora, uma menina apaixonada por livros (eu?) e por palavras (eu de novo?) que descobre na escrita uma possibilidade de transformar todos a sua volta, escreve um romance que modifica drasticamente a vida de todos e que salta do papel para a vida real. Flora é uma sonhadora, mas não vê possibilidade de levar adiante seu romance, até que seu pai resolve apresentar os manuscritos a um amigo e por intermedio deste conhece um rapaz que dá um giro na vida de todos. Julius Templeman não só vai encantar e se encantar por Flora inicialmente, e até nos enganar, como vai ser uma grande surpresa no decorrer da história. Um detalhe que fez com que eu fosse dormir bem tarde, já que a partir daí minha curiosidade foi elevada a potência máxima… Ainda bem que eu estava entrando em férias!

Falei de dois personagens, mas todos são interessantíssimos. Prefiro não estragar a leitura entregando tudo de uma vez.

Vale lembrar que a inspiração da Letícia para esse livro é a costa do uruguai, a sua paixão pelo mar e por histórias de naufrágios. Logo, a história é ambientada em uma ilha afastada, e as cenas se passam, na maior parte, em torno do farol dessa ilha.  Elementos como mar, pescadores, ventos, temporais são o tom que dá dramaticidade a cada trecho, particularmente isso me fez curtir ainda mais a leitura.

Outro detalhe interessantíssimo na trama é a diversidade de personagens, tanto pelo número quanto pelas personalidades de cada um. Nenhum se parece, todos se complementam em algum momento, mas se afastam da mesma forma e com a mesma intensidade.

O resto vou deixar pra quem quiser ler e descobrir com seus próprios olhos, ok!

Segue a sinopse oficial, via Editora Intrínseca:

Um farol enlouquecido deixa desamparados os homens do mar que circulam em torno da pequena e isolada ilha de La Duiva, expondo-os, todas as noites, às ameaças dos rochedos traiçoeiros. Sob sua luz vacilante, Cecília, matriarca da família Godoy, reconstitui as cicatrizes do passado com linhas e agulhas. Em dolorosa solidão, ela tece uma interminável tapeçaria em que entrelaça as sinas de Ivan, seu marido, e de seus filhos ausentes, elegendo uma cor para cada um.

Muitas gerações da família de origem espanhola zelaram pelo farol, naquela ilhota perdida no sul. Apesar da oposição de Doña, sua mãe, Ivan se apaixona por Cecília.

Os dois se casam e têm seis filhos — Lucas, Julieta, Orfeu, as gêmeas Eva e Flora, e o temporão Tiberius —, que povoam a ilha com suas personalidades marcantes e talentos misteriosos. Apaixonada pelos livros, a jovem Flora descobre que possui o dom para a literatura e começa a escrever um romance. Tão poderosas são suas palavras que certas cenas deixam o papel e transbordam para a realidade.

Depois de concluído, o manuscrito chega às mãos do inglês Julius Templeman, professor de Cambridge e especialista em literatura latino-americana. Tomado de encanto pelo frescor e pela vitalidade da criação da jovem escritora, ele decide deixar a Europa e ir até La Duiva, para conhecer pessoalmente a autora. A chegada do forasteiro provoca mudanças profundas e irreversíveis nos moradores da ilha e no próprio Julius. Ele desperta desejos, desencadeia paixões e torna-se o vértice de um inusitado triângulo amoroso, cujas consequências levam os filhos de Cecília a se espalharem pelo mundo em busca de outros verões.

Com uma linguagem poética, Leticia Wierzchowski dá voz e vida a cada um dos integrantes da família Godoy, criando sua própria tapeçaria delicada e surpreendente, enriquecida por múltiplos e divergentes pontos de vista.

 

Essa é uma leitura que recomendo de coração aberto. E emocionada.

Sabem aqueles livros que te ganham, te conquistam a ponto de até querer saber o final da história mas não querer que ele acabe. Sofri quando li a última página, queria mais daquela riqueza de histórias, de palavras, de poesia misturada com romance, de metáforas!

Fazia tempo que não sentia tanta saudade ao terminar um livro. Certamente será um livro pra ler e reler. E em breve.

PS: Encontrei pra baixar (gratuitamente) um prólogo sobre SAL, tem várias plataformas, vale dar uma olhada antes de ler o livro mesmo: AmazonSaraivaSicilianoKobo/Cultura e iTunes.

PS 2: Gente, acabei de descobrir que já li, sim, outro romance da Letícia – que gafe – se chama “De um grande amor e de uma perdição maior ainda”. Não sei onde foi parar o post sobre ele, provavelmente ficou pra trás, no Devaneios de Chocolate. Foi um empréstimo de uma colega de trabalho, há um bom tempo atrás. Vou tentar resgatar e postar aqui pra vocês! Descobri, pesquisando sobre o livro que a minha amiga Rita citou nos comentários, que na verdade se chama Eu@teamo.com.br: O Amor nos Tempos de Internet (viu, amiga?) no Submarino e no Estante Virtual. 

 

 

 

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

6 comentários

Rita · 27 de novembro de 2013 às 02:14

amiga

Amooooo os teus blog posts todos, eu acho que tu tinhas que fazer uma resolucao de 2014 para UM POST POR DIA, tipo 365 days of blogging :)

Os posts sobre livros sao extra especiais, amo, da vontade de ler todas as tuas indicacoes.
Tu tens o maior talento para isso, deverias trabalhar para uma editora ou jornal!

Sabes que eu li em 1997n (credo, velha) o livro P.S EU TE AMO que a Leticia e o Marcelo Pires , seu marido, fizeram de lembrancinha para seu casamento. Ele era (ou é) publicitário, lembro dele dos tempos de revista Capricho, tinha uma coluna, e eles se conheceram através da internet e se mandaram tantos emails fofos que transformaram os emails em um livrinho. Na epoca eu comprei na livraria na 24 na frente do parcao e BUAAAAAA perdi, nunca mais achei. Era tao fofo.

Eu gosto muito dela como personalidade, tenho que ler mais livros dela.

Beijocas mil

INVEJA MASTER da tua 1 horinha so para ti aproveitando o que tu mais gostas, o maximo dos maximos, se este blog tivesse like daria uns 30 :)

Rita

    Nine Copetti · 27 de novembro de 2013 às 06:52

    Amiga, puxa, puxa, puxa!
    O que mais amo é escrever, mas um post por dia seria um baita desafio! Vou pensar! Hahaha!

    Pois tu sabes que ainda não sei como não havia lido nada da Leticia? Nem sabia dessa história dela e do marido! Que bacana! Será que ainda existe esse livrinho com as cartas? Vou até dar uma pesquisada!

    Esse livro particularmente é um romance bem diferenciado, com tantos narradores e escrito de uma forma tão encantadora que fico torcendo pra que os próximos sejam assim também!

    Adorei teu recado por aqui!!!
    Agora vou aproveitar minha horinha mágica!!!
    Beijos mil!

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TAG – Experiências Literárias | Curadoria de Livros | ≈ inƒinito particular ≈ · 11 de abril de 2016 às 00:55

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Lançamento de Navegue a Lágrima · 28 de julho de 2015 às 01:13

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