Estava pensando com meus botões… Ando quase perdendo o controle sobre os livros que ainda não resenhei por aqui… Eles estão por toda parte, espalhados pela casa para me lembrar da árdua tarefa de escrever aqui sobre cada um. Muito tenso!

Mas hoje eu preciso contar pra vocês sobre um em especial, indicação de uma amiga louca por livros e mais – louca por livros que falam de guerras, assim, meio como a minha pessoa, né! Da segunda guerra, pra ser mais específica. E ela não sossegou enquanto não “rouxinolzou” todo mundo! Obrigada, Grazi! <3

O Rouxinol é principalmente sobre uma destemida garota que dá asas aos seus ideais, mas é mais que isso! É sobre duas irmãs muito diferentes vivendo vidas diferentes e agora, tendo que encarar um momento de expectativas das piores: a chegada da guerra, literalmente na porta de casa.

Sinopse:

França, 1939: No pequeno vilarejo de Carriveau, Vianne Mauriac se despede do marido, que ruma para o fronte. Ela não acredita que os nazistas invadirão o país, mas logo chegam hordas de soldados em marcha, caravanas de caminhões e tanques, aviões que escurecem os céus e despejam bombas sobre inocentes. Quando o país é tomado, um oficial das tropas de Hitler requisita a casa de Vianne, e ela e a filha são forçadas a conviver com o inimigo ou perder tudo. De repente, todos os seus movimentos passam a ser vigiados e Vianne é obrigada a fazer escolhas impossíveis, uma após a outra, e colaborar com os invasores para manter sua família viva. Isabelle, irmã de Vianne, é uma garota contestadora que leva a vida com o furor e a paixão típicos da juventude. Enquanto milhares de parisienses fogem dos terrores da guerra, ela se apaixona por um guerrilheiro e decide se juntar à Resistência, arriscando a vida para salvar os outros e libertar seu país.

Vianne acaba de se despedir do marido Antoine, que assim como a maioria dos homens da cidade, foi convocado para o fronte; ela fica sozinha com sua filha Sophie na imensa propriedade da família. Ela realmente não quer pensar na guerra, não acredita que os alemães consigam chegar ao vilarejo onde vivem, menos ainda na propriedade onde moram, o Le Jardin: um imenso espaço de terra, com uma casa de pedra grande e espaçosa onde viveram várias gerações da família.

Isabelle, a irmã mais nova, ainda solteira e no auge da sua juventude e na bagagem toda a coragem, a rebeldia e a alma livre típica da idade, completamente destemida e determinada a seguir seus ideais. Uma garota desapegada, que não consegue olhar para tudo que acontece em sua volta sem agir de alguma forma, sem ajudar… Ela vai à combate, se apaixona perdidamente e nem quando o amor parece ignora-la ela perde seu foco na luta contra o nazismo ou o que quer que esteja matando pessoas inocentes. É Isabelle que, contrariando os conselhos da irmã, vai salvar vários soldados aliados, ajudando-os a escapar pelos Pirineus (e um detalhe incrível aqui, essa parte do romance é baseada em uma história real de uma mulher belga, isso realmente trouxe mais significado à leitura).

Enfim, retomando: duas pessoas – mulheres – que passaram por uma infância e início de adolescência difíceis, acreditando não serem amadas o suficiente pelo pai e que acabam seguindo rumos totalmente diferentes na vida, mas que em determinado ponto se reencontram e aí precisam se enfrentar e se entender em meio ao caos causado pela guerra iminente. A perda precoce da mãe e o aparente desamor do pai fazem com que Isabelle viva uma crise interior muito forte; enquanto Vianne tem “sorte”por encontrar Antoine, casar e ter finalmente uma vida confortável e feliz, Isabelle fará inúmeras tentativas de aproximação com o pai, seja para apenas manter contato ou para viver com ele. E ele sempre irá repelí-la, para seu desespero.

Vianne, como irmã mais velha se sente responsável pelos atos da irmã, mas não seus conselhos se fazem inúteis também, ela não consegue ter domínio sobre os atos da caçula, nem convencer Isabelle a ficar em casa, protegida de certo modo, com ela e Sophie, até mesmo pensando na ajuda que ela poderia oferecer em casa. Isabelle até tenta em um determinado momento, já quando os alemães tomam o Le Jardin, mas sua impetuosidade e coragem colocam Vianne e a filha em risco, ela percebe isso e resolve seguir sua intuição. Mesmo que signifique estar próxima demais dos inimigos e correndo risco de morte o tempo inteiro.

Apesar de Vianne ter ficado sozinha com a filha na casa, uma das suas vizinhas, Rachel, era muito amiga dela e foi por muitos meses sua companhia e seu apoio emocional. As duas eram professoras da escola local. Rachel passou por um dos momentos mais delicados e dolorosos do livro, na minha opinião: ela era judia, ela foi levada pelos alemães para um dos campos de concentração. Quem a “dedurou” foi a amiga, para o comandante que estava vivendo na sua casa, mesmo sem saber, e mesmo que fosse contra a vontade, porque na guerra há mais coisas do que a gente imagina e há fatos que não temos como julgar sem viver na pele. A parte bonita foi que Vianne conseguiu esconder o filho (ainda bebê) de Rachel e de certa forma, salvá-lo.

Se há uma coisa que aprendi nessa minha longa vida foi o seguinte: no amor, nós descobrimos quem desejamos ser; na guerra, descobrimos quem somos. Os jovens de hoje querem saber tudo sobre todo mundo. Acham que falar a respeito vai resolver um problema. Eu venho de uma geração mais calada. Nós entendemos o valor do esquecimento, o fascínio da reinvenção.

Embora, como vocês podem perceber, o tema seja triste, revoltante e o tempo inteiro muito tenso, a narrativa é suave, cuidadosa e guarda surpresas até o final, pois não temos noção de quem é a senhorinha que fala… Ora pensamos ser Isabelle, ora Vianne. Isso faz com que a gente se prenda de um jeito meio mágico à história contada e queira ler tudo de uma única vez. É engraçado como essa “viagem no tempo” logo na introdução nos faz sentir como se fizéssemos parte daquele momento do livro. E ao final, conforme vai se desenleando a história, também vamos nos surpreendendo com os relatos, com as memórias daqueles tempos difíceis, das dificuldades e em como, cada uma a seu jeito, as duas tiveram sua parte no esforço de guerra. E nenhum esforço desmereceu o outro.

O livro aborda a nossa fragilidade, nossos medos e inseguranças, faz com que a gente precise rever todos os valores e conceitos formados até aqui, nos impõe decisões que fora do cenário de guerra seriam mais simples. Levanta mais que questões sobre a ajuda ao próximo, a empatia, a solidariedade pura e simples, para uma necessidade de se proteger, de defender um território que a cada dia fica mais difícil de entender onde começa ou termina. De se aliar ao inimigo e perceber que ele talvez também seja somente mais um ser humano obrigado a cumprir seus deveres na guerra. No pior cenário, ter que decidir pequenas coisas como garantia de alimento diário para os filhos, e isso parece uma prova de fogo. Perder, num piscar de olhos: a casa, seus pertences, seu direito de decisão, suas memórias, suas dignidade…

“Vianne detestou o que viu nos olhos da filha naquele momento. Não havia nada de jovem naquele olhar – nenhuma inocência, nenhuma ingenuidade, nenhuma esperança. Nem mesmo tristeza. Só raiva.”

Eu realmente fiquei tocada com esse romance, com a delicadeza com que a escritora traça a história dessas duas mulheres, de todas as mulheres que tiveram que travar duras batalhas longe do fronte. E a força contida e às vezes explosiva que elas possuem é imensurável. São mais ainda, verdadeiras batalhas internas que diariamente elas precisavam enfrentar, escassez de alimentos, privações diversas, invernos rigorosos, violência dos soldados nazistas, preconceitos e tudo de mais feio que há num mundo em guerra (ou não).

As cenas em que Vianne tem a casa tomada pelos nazistas e precisa lidar com o capitão Beck e com as ordens do comando ao mesmo tempo em que atende sua filha e tendo ainda que lidar com o comportamento impetuoso da irmã, principalmente com seus sumiços… Soma-se a isso a saudade do marido, a ausência de notícias, a carência, a atenção especial dada pelo comandante, que tenta demonstrar que também está ali pela imposição da guerra, que também tem uma família, filhos, esposa… As decisões rápidas, o instinto de sobrevivência… E quando outro comandante nazista – Von Richter – assume o lugar do capitão Beck. Um homem truculento, violento, inescrupuloso… E as decisões dela passam a ser preservar a sua intimidade, a sua dignidade ou alimentar e proteger seus filhos, temos vontade de invadir as páginas do livro e acabar com ele!

Todas as atrocidades que já vimos em outros romances, nesse vem com mais força, mostrando que não há lado certo ou errado, mas de formas diferentes de enfrentar a vida, de entender a sua complexidade. Inclusive na guerra.

“- Sabe uma coisa que aprendi nos campos de concentração? (pergunta Isabelle)

– O que? (responde Vianne)

– Que eles não podiam tocar no meu coração. Não podiam mudar quem eu era por dentro. O meu corpo… eles destruíram nos primeiros dias, mas não o meu coração, Vi. O que quer que ele tenha feito, foi no seu corpo e seu corpo vai se recuperar.”

Eu recomendo O Rouxinol como uma leitura pra vida, pra ler sempre. Entra naquela listinha de livros que de tempos em tempos é preciso retomar, revisitar as memórias de leitura, os conceitos, as reflexões. Deixou marcas profundas e um desejo de ter conhecido, ter apoiado, ter chamado as duas num cantinho e explicado que tudo daria certo, mesmo sabendo que nada era tão simples assim naqueles tempos. Difíceis tempos.

Um dos romances históricos mais bem escritos que li nos últimos tempos! Se tiverem oportunidade, leiam também!

PS: E se tu já leu, bora me contar, comenta aí embaixo, vai!!! Tô esperando…

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

4 comentários

livros · 9 de julho de 2016 às 08:03

Muito bom

Graziella · 26 de maio de 2016 às 10:49

Nineeeee do céu!!!!!!!! Que resenha é essa mulher!!!!!! Terminei de ler toda arrepiada, e com vontade de me roxinolzar outra vez!!!!!! Parabéns pela sensibilidade ao escrever e por confiar nas minhas loucas indicações hehehehe <3

    Nine Copetti · 26 de maio de 2016 às 11:10

    As tuas loucas indicações renderam as melhores leituras!!! Pode continuar!!! <3
    E obrigada pelo teu comentario super carinhoso!!!
    Beijão

Leituras de 2016 – Desanuviamentos · 22 de janeiro de 2017 às 11:06

[…] O rouxinol, Kristin Hannah – ♥♥♥♥♥ […]

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