DICAS DE LIVROS

Dica de Livro | O Jogo do Anjo

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Posted on / by Nine Copetti

Um dia de chuva é sempre perfeito pra vir aqui tentar recuperar um pouco do tempo que passei sem publicar nadica. Hoje Porto Alegre amanheceu cinza e com aquele barulhinho bom na janela! Amo dias chuvosos e já fazia um tempo que a danada não dava as caras por aqui! Os rios e as plantas ficam felizes e eu também! Então bora escrever logo antes que a chuva vá embora, né?

Zafón é, como muitos aqui já devem saber, um dos meus escritores favoritos. Desde que li ‘A Sombra do Vento’ (não tem post publicado, me perdoem, já deve ter feito uns 10 anos que li) fiquei um tanto viciada no estilo literário dele. De lá pra cá, li quase todos os seus romances: ‘O Prisioneiro do Céu’, ‘Marina’, ‘As Luzes de Setembro’ e por último (ainda faltam três contando o lançamento que chega em Abril) ‘O Jogo do Anjo’, que terminei de ler em dezembro. Sobre ele que vamos conversar agora.

Sinopse via Skoob:

Aos 28 anos, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente, o escritor David vive sozinho num casarão em ruínas. É quando surge em sua vida Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros. Sua origem exata é um mistério, mas sua fala é suave e sedutora. Ele promete a David muito dinheiro e sua simples aparição parece devolver a saúde ao escritor. Contudo, o que ele pede em troca não é pouco. E o preço real dessa encomenda é o que David precisará descobrir.

‘O Jogo do Anjo’ é o segundo livro da tetralogia ‘O Cemitério dos Livros Esquecidos’, de Carlos Ruiz Zafón, foi publicado pela primeira vez em 2008 e eu vou confessar que logo que lançaram, ainda sob o efeito da leitura de ‘A Sombra do Vento’ – que é o primeiro volume – corri para a Cultura garantir meu exemplar (eu ainda nem sonhava com o Kindle nessa época) e já comecei a ler. E a leitura não me ganhou naquele momento, nem sei explicar o que aconteceu, simplesmente não engrenei, acabei abandonando logo nas primeiras páginas. Pois é! Alguns anos depois e leitura 100% concluída, afirmo que quase superou minha paixão pelo primeiro romance. Tudo tem sua vez na vida da gente, até mesmo os livros.

“A fé é uma resposta instintiva a certos aspectos da existência que não podemos explicar de outra forma, seja isso o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, o mistério da origem das coisas ou o sentido de nossa própria vida, o ainda a completa ausência dele. São aspectos elementares e de extraordinária simplicidade, mas nossas próprias limitações nos impedem de responder de modo compreensível a tais perguntas e por isso criamos, como defesa, uma resposta emocional. É pura e simples biologia.” (Corelli, em diálogo sobre crenças com David Martín)

O pano de fundo é mais uma vez a apaixonante e sombria Barcelona do início do século XX, suas ruas que ora escondem, ora revelam grandiosos mistérios e casarões antigos que permitem uma viagem à parte. Aqui pude revisitar a livraria dos Sempere, matar as saudades do Sr. Sempere e seus preciosos conselhos sobre o mundo dos livros e a vida. Reencontrar Daniel Sempere ainda que não com o mesmo brilho que tinha em ‘A Sombra do Vento’, quando seu personagem tinha mais protagonismo, também foi uma grata surpresa. David Martín chega já com a aura carregada de maldições, mesmo com todo esforço (talvez nem seja tanto assim) que faz para tentar se livrar do azar e de tudo de ruim que vem com suas escolhas, ele cativa. Martín, como todo bom sonhador, acredita que tudo dará certo no final, tanto que não consegue se dar conta o suficiente que está sendo emaranhado em uma teia perigosíssima.

“Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre sua cabeça, um prato quente no final do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente vai viver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço.” (David Martín)

O romance todo se dá em torno de Martín, dos amigos e inimigos que vai fazendo pelo caminho, dos amores que conquista e decepciona ao mesmo tempo. Mesmo quando parecem apenas inocentes amizades. Sua trajetória como escritor anda ladeira abaixo, seus contos publicados no jornal já não fazem tanto sucesso, os contratos o obrigam a escrever em um estilo que não é o seu e não traz nenhum prazer – nem dinheiro suficiente para morar decentemente. As puxadas de tapete se tornam tão frequentes que até os textos meia boca que publica são rejeitados e ele fica quase que vivendo na miséria. Até encontrar com seu futuro agente, misterioso e sombrio como a própria Barcelona que os acolhe. Numa proposta ao mesmo tempo tentadora e tenebrosa, Martín vai entrar em um acordo que mais parece um pesadelo, mesmo com uma grana preta na conta que permite à ele finalmente ter um lar e acesso ao tratamento de saúde que salvará sua pele e permitirá que tenha novo folego para voltar à escrita. O preço a pagar será altíssimo e a cada novo capítulo isso  se apresenta fazendo com que a gente não queira largar o livro nem por um segundo sequer.

Não é novidade pra que já leu outros romances do escritor, mas o fato é que cada capítulo traz novas sensações, um misto de fantasia e mistério. Martín, ao mesmo tempo em que tentar salvar a própria pele de um tumor cerebral (que aniquilaria seu sonho de se tornar um reconhecido escritor), se deixa levar pelas ordens descabidas de Corelli, até tal ponto que parece ser impossível  reverter a situação – ele literalmente entra no “jogo do anjo” e assim, num círculo vicioso que acabava, inclusive pra quem está lendo, misturando o  real e o imaginário numa miríade de situações, inclusive a dúvida sobre o rastro de pessoas mortas imediatamente após as visitas de Martín.

A leveza da história fica por conta das visitas de Martín ao amigo Sempere, ao seu relacionamento com a nova amiga, Isabella e os diálogos repletos de ironia e de graça entre os dois. A simplicidade e a franqueza deles cativa e eu até torci para um romancezinho surgir ali.

Uma coisa é certa nesse livro: promessa é dívida e Andreas Corelli sabe cobrar como ninguém. Um misto de anjo mau numa carapuça de bondade que levará Martín ao seu extremo e ele não descansará até desvendar essa espécie de maldição da qual não consegue se livrar. Corelli tem o poder de persuadir e uma retórica que não deixa margem para questionamentos, apenas instiga grandes reflexões internas.

A leitura de ‘O Jogo do Anjo’ levanta questões do mundo editorial, o lado escuro da literatura e a ética ao reescrever algo poderoso – ou mesmo a falta dela. Traz metáforas que nos instigam a uma reflexão profunda sobre até onde podemos ir com nossa vaidade, nossa vontade. Nos revela um lado sombrio que gostaríamos que jamais viesse à tona. Nos mostra caminhos diferentes daqueles que confortavelmente escolhemos. Inclusive no que se refere ao amor e suas nuances. Pactos nunca são bons. Acordos onde só um lado leva vantagem rendem uma estrada sinuosa de segredos, dúvidas, pesadelos e uma dívida eterna, impossível de se cumprir.

“Ate então, não tinha compreendido o quanto desejava continuar a respirar, continuar a abrir os olhos toda manhã e sair para a rua, pisar as pedras e ver o céu e, sobretudo, continuar recordando.Fiz que sim.” (Martín, sobre aceitar a proposta de Corelli)

Zafón mais uma vez nos leva pela mão e nos faz apaixonar mais ainda pela trama do Cemitério dos Livros Esquecidos, onde nunca somos nós a escolher um livro, mas ele a nos escolher. O nosso dever de proteger a obra que nos escolheu pode nos levar a redenção ou ao inferno. É um detalhe no percurso. Essa é mais uma obra grandiosa que foge de tudo que já li (mesmo agora, também apaixonada por Neil Gaiman e suas histórias fantásticas) e é perfeita para quem não curte aqueles finais obvios. Há muito mais nas entrelinhas de ‘O Jogo do Anjo’… Leiam!!! Leiam os outros dois livros também (O Prisioneiro do Céu e A Sombra do Vento) porque logo, logo, já em Abril, chega nas livrarias ‘O Labirinto dos Espíritos’, o fechamento dessa tetralogia que só não vai deixar saudades porque a gente adora reler tudo o que nos cativa. E teremos pela frente quase mil páginas pra nos divertir! ♥

∗Bônus da Editora Planeta (em Português de Portugal, no Brasil o livro sairá pela Suma de Letras) –  Primeiro Capítulo de O Labirinto dos Espíritos!

Bom restinho de domingo, gente!!!

1 pessoinha leu, curtiu e recomenda esse post!

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