” E todavia a dor principal,  a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de uma hora, depois dentro de dez minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, neste instante – a alma irá voar do corpo, que você não vai mais ser uma pessoa, e que isso já é certeza; e o principal é essa certeza.”

(Trecho de O Idiota, Fiódor Dostoiévski)

E depois de tanto tempo eu consegui concluir minha mais complexa/complicada/difícil/tensa leitura de todos os tempos: O Idiota, de Dostoiévski. Pois é, alguns anos de leitura abandonada, um resgate, uma bela dose de insistência e perseverança e cá estamos: livro lido, vencido!

Bem, já tem uns bons meses que terminei de ler, mas quem me segue sabe que andei deixando o blog mais abandonado do que gostaria!!

Pra começar a história, vou deixando claro que nunca havia lido nenhum clássico russo, não que me lembre. Foi uma leitura bastante lenta, minuciosa e que exigiu muito mais atenção ao contexto da tradução. Uma leitura sofrível que requer muito de quem se dispõe a ler sem conhecer a essência do escritor e sem contar a dependência do entendimento do tradutor, de como ele vai conseguir manter o enredo o mais fiel possível a obra original. Ainda precisei consultar as notas de rodapé que também tiravam minha atenção o tempo todo (eu li por aí que esse tradutor é um dos especialistas em livros russos) e, vamos combinar, com nomes de personagens e lugares impronunciáveis, tanto que acabam desviando ainda mais a atenção. Assim, devagar e pacientemente fui – e exaustivamente também – vencendo as quase 700 páginas dessa obra. Ufa!

Abro um parênteses aqui pra dizer que fiquei com muita vontade de mergulhar em um curso de literatura russa, porque não consigo conviver com essa sensação de incompletude que me consome, hahaha! Agora vou precisar muito pesquisar tudo sobre as obras de Dostoiévski e dos seus colegas escritores, além do estilo, da época e das histórias que levaram esses caras a escreverem coisas tão surreais. Ou nem tanto.

Continuando, vocês já puderam perceber que O Idiota é um livro denso, demorado, detalhadíssimo, com diálogos longos e complexos e muitos trechos dedicados a reflexão.  Na concepção de Dostoiévski idiota é aquele que parece bobo, frágil, dependente, mas que no fundo tem uma alma doce e uma inteligência apurada, qualidades que nem sempre são valorizadas ou reconhecidas devido a primeira impressão que esse tipo de pessoa carrega.

Um pouco do que trata o romance (via InfoEscola);

O Idiota é uma das obras-primas do autor russo Fiódor Dostoiévski, considerado o criador do movimento existencialista. Ele gerou este livro na cidade de Florença, entre 1867 e 1868, ao longo de quatro meses. Na gestação deste romance o escritor foi profundamente influenciado pela clássica novela de Cervantes, Dom Quixote. Há várias semelhanças entre o herói espanhol e o príncipe russo Míchkin.

Publicado em 1869, este volume perturbador foi, na época, sucesso de crítica. Nele Dostoiévski narra a história de um príncipe herdeiro que, por alguns anos, permanece na Suíça para se recuperar de uma enfermidade conhecida como idiotia. Ao se considerar curado ele retorna à Rússia.

Nesta mesma ocasião ele conhece a inconstante e imprevisível Aglaia, uma das filhas do casal Epantchiná, com quem ele tem remoto parentesco, e passa a nutrir pela jovem uma profunda afeição. O príncipe, que também é epilético, é a encarnação da bondade, da sinceridade, da fantasia e da inocência, qualidades que muitas vezes são confundidas com patetice e estupidez.

Na verdade,  Míchkin é mais perceptivo, sagaz e inteligente que muitos daqueles que o injuriam e perseguem. Ele tem o poder de vislumbrar o interior das pessoas, de conhecer a essência dos que o cercam. Assim, o príncipe conhece muito bem cada ser a sua volta, embora ninguém sequer desconfie disso.  (pra quem quiser ler mais, tem aqui a continuação).

Eu fiquei bastante orgulhosa quando consegui concluir essa leitura, mas confesso que ainda sinto que não foi uma experiência completa.

Míchkin, o príncipe que sofre de idiotia e epilepsia, que tem um coração  puro, uma inocência e uma humildade francos passa boa parte da história tentando estabelecer laços com as pessoas que encontra, pensa que todos podem ser seus amigos sem desejar nada em troca, que todas as pessoas são boas, enfim, tudo o que acontece na vida real quando tentamos ser bons e encontrar pessoas boas… As más irão aparecer e tentar distorcer as coisas ou então atrapalhar a vida de quem vê tudo de uma forma mais poética e teatral.

As cenas e os diálogos passam lentamente, dão voltas e voltas, confundem, fazem com que a gente precise parar e pensar um pouquinho na semelhança com a vida real, com o mundo real. Assim também acontece quando (pra quem já leu ou ouviu bastante sobre Dom Quixote) as semelhanças pulam das páginas do livro e tomam forma pra muito além de uma simples história…

Uma novela da vida real com mais profundidade é o que penso sobre essa história, personagens bons e maus, interessados e interesseiros, vidas que se cruzam e se separam. Sabem aquela velha história do cenário imaginário que cada um cria a seu jeito, pois então, a riqueza de detalhes, de fatos, de  personagens é tão grande que não tem como explicar como eu “vi” cada cena lida, como imaginei as ruas geladas de São Petersburgo, as casas por onde passou o príncipe, as amizades e inimizades que ele fez (não intencionalmente), os amores que teve, as viagens e as histórias contadas tantas e tantas vezes.

Uma das poucas coisas que consegui perceber nessa obra tão especial (porque difícil está longe de ser ruim, né) são os relances ou “insights” de obras de outros escritores, de passagens conhecidas de poetas, filósofos e até da bíblia. É possível reconhecer tanto o Cristo quanto Dom Quixote em Príncipe Míchkin e os outros personagens também tem ligações bem curiosas e interessantes com as obras que influenciaram Dostoiévski.

Outro detalhe interessante é que apesar de parecer uma novela gigantesca, a história não tem início, meio e fim, mas é um fim em alguns pontos, focada em comportamento, em crises existenciais, em reflexões profundas do ser humano e segundo alguns estudiosos dostoievskianos, em suas próprias dúvidas e crises.

O lado ruim de escrever sobre um livro tanto tempo depois de ter lido é que a chance de que alguns detalhes escapem é muito grande, mesmo assim quis falar pelo menos um pouquinho dele pra vocês. Se alguém mais leu e tem outras impressões divide por aqui… Essa é a melhor parte de ler… As conclusões de cada juntas e misturadas.

Pronto, primeira parte da missão: cumprida!

Título: O Idiota

Escritor: Fiódor Dostoiévski

Classificação: Ficção Russa

Ano de Publicação: 2002

Tradução: Paulo Bezerra

Editora: 34

P.S.1: Já aceitei que vou precisar ler mais algumas vezes essa obra.

P.S.2: Puxa, como são caros esses cursos de literatura russa aqui em POA, OMG, sem condições no momento!  :(

P.S.3: Já comecei a escrever sobre o segundo livro, uhuu! ;)

Beijos,

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

3 comentários

Bere · 12 de agosto de 2014 às 14:58

Fiquei com vontade de ler O IDIOTA….na verdade sempre achei q nao gostaria…mas ao ler teus comentarios fiquei bem interessada…escreves muito bem…parabens….bj

    Nine Copetti · 12 de agosto de 2014 às 21:14

    Bere, bem vinda por aqui! Obrigada! ;)
    Olha, eu resisti muito tempo, esse livro ficou guardado por anos até que eu resolvesse ler! Depois que pegamos o jeito dá pra perceber o quanto a leitura é rica! Estou pensando em seguir adiante e escolher mais alguns russos pra minha lista!
    Beijo grande!

Dica de Livro | Noites Brancas | ≈ inƒinito particular ≈ · 8 de abril de 2016 às 10:27

[…] da minha batalha pra conseguir ler “O Idiota” – leitura densa, extremamente difícil e muito diferente da literatura atual – […]

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