“… vai ouvir que nesses recantos vivem pessoas estranhas: os sonhadores. Um sonhador, se é necessária uma definição detalhada, não é um homem, mas sim, sabe, uma criatura de gênero neutro. Na maioria das vezes ele habita um recanto inacessível, como se quisesse esconder-se até da luz do dia, e uma vez que se recolhe a sua casa, gruda-se em seu canto como um caracol; ou pelo menos nesse aspecto ele se parece muito com aquele animal interessante, que é animal e casa ao mesmo tempo e que se chama tartaruga.”

Oh, céus… Quanto tempo sem postar nada por aqui!? Não bastasse a ressaca literária em que me encontro, ainda tenho que aturar minha ressaca blogística… Hahaha!!! Bora tirar os atrasos logo, então… (ainda tem alguém aí?)

Depois da minha batalha pra conseguir ler “O Idiota” – leitura densa, extremamente difícil e muito diferente da literatura atual – resolvi escolher um romance leve e jovial (absolutamente diferente do primeiro) do Dostoiévski para seguir minha maratona russa: Noites Brancas me pareceu uma boa escolha, bati o olho nele numa das minhas visitas à Livraria Cultura e já pensei: é esse! E numa das nossas idas à Canela, aqui pertinho, na Serra Gaúcha, levei ele a tiracolo decidida a ler de uma só vez, já que é um livro curto, de poucas páginas mesmo – e tirar a prova de como esse russo pode ir de um extremo à outro nas suas obras, sem perder seu estilo de escrita.

Pois bem, Noites Brancas é um romance dos mais puramente românticos que já li. E o mais incrível, não é bobo ou piegas, nada disso. Dostoiévski tem uma desenvoltura, uma graça única para escrever algo tão profundo e sentimental, que até parece que está escrevendo poesia. A leitura é leve, agradável, quase cantarolada. Eu achei meio mágico o efeito que esse livro teve sobre mim. Me encantou, me prendeu da primeira a última página.

“Mas nunca me esquecerei da história de uma linda casinha rosa-claro. Era uma casinha de pedra tão agradável, olhava de forma tão acolhedora para mim, e de forma tão arrogante para suas vizinhas desajeitadas, que meu coração se alegrava quando me acontecia passar na sua frente.” 

Sinopse:

Durante uma das singulares “noites brancas” do verão de São Petersburgo, em que o sol praticamente não se põe, dois jovens se encontram numa ponte sobre o rio Nievá e dão início a uma história repleta de fantasia e lirismo.

Publicado em 1848, na contracorrente de sua época, que privilegiava o Realismo, este livro é, na obra de Dostoiévski, aquele que mais se aproxima da escola romântica. Não apenas pelo tipo do Sonhador, figura central da novela, mas também pela atmosfera delicada e fantasmagórica, que envolve a trama, o cenário e os protagonistas. Aqui, a própria cidade de São Petersburgo – com seus palácios e pontes, seus espaços monumentais – revela-se como personagem.

Uma moça em prantos, sozinha… Um sonhador observador e sensível… Um acaso perfeito. Ou nem tanto. A névoa de magia que encobre o encontro desses dois personagens é algo que nos acompanha por toda a leitura, num ritmo quase exaustivo. Perdemos o fôlego e nos emocionamos juntos com eles. Nos apaixonamos e desapaixonamos também. A poesia contida nos diálogos, a simplicidade e a ingenuidade dos sentimentos… Cada parágrafo vem carregado de mistério, mas também de uma leveza surpreendente, fazendo parecer o romance um jogo com o leitor. Uma brincadeira que vai nos conduzindo brilhantemente ao final da história sem por nem um minuto sequer nos deixar com vontade de que ela termine. Senti como se a escrita fosse um alimento e como se eu desejasse mais e mais páginas para ler, que a história não tivesse fim.

“Escute, o senhor fala maravilhosamente, mas será que não pode falar de uma maneira menos maravilhosa? O senhor fala exatamente como se lesse um livro.”

Dostoiévski, apesar de escrever essa pequena novela jovial, não deixa de nos mostrar o quanto a vida é mágica e misteriosa, o quanto pode ser bela e ao mesmo tempo trágica. Nunca imaginei que tão poucas páginas fossem capazes de me deixar com a sensação de que li 600. Conforme ia avançando, fazia pequenas pausas contemplativas, bem como o personagem sonhador, para refletir aquelas palavras, aquele contexto. Isso é magia pura das palavras de quem sabe o que escreve e como escreve. Nisso ele é único, suas construções de personagens e cenários, sua visão sobre a cidade de São Petersburgo descrevendo detalhadamente cada pedacinho dela, cada recanto, nos fazendo visitá-la com nossa imaginação e desejar de fato estar nela um dia.

“Sente-se que ela, essa fantasia ‘inesgotável’, finalmente se cansa, enfraquece numa tensão eterna, pois você amadurece, abandona seus antigos ideais: estes se desfazem em pó, em pedaços; se não há outra vida, então é preciso construí-la a partir desses pedaços. E no entanto, é uma outra coisa que a alma pede e quer! E em vão o sonhador remexe, como que nas cinzas, em seus velhos sonhos, procurando nessas cinzas ao menos uma centelha para soprá-la e, através do fogo renovador, aquecer o coração esfriado e ressuscitar novamente nele tudo o que antes era tão belo, que tocava a alma, que fazia o sangue fervilhar, que arrancava lágrimas dos olhos e que iludia com tanta perfeição.”

Para quem já leu e releu Dostoiévski, Noites Brancas vem como um presente, uma grata e delicada surpresa. E provoca em nós uma vontade de conhecê-lo ainda mais. Ele está presente nas entrelinhas, o tempo inteiro tentando nos mostrar muito mais que um simples romance. Recomendo muito a leitura, mesmo para quem – assim como eu – tem ainda receio da literatura russa. Depois que entendemos o escritor, seus livros desvendam um mundo totalmente a parte do que conhecemos e vivemos.

A mágica acontece depois que conseguimos compreender um pouco mais a alma dele. E esse é um romance quase surreal e muito lindo, na sua forma mais pura.

Leiam! <3

Beijos,

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

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