DICAS DE LIVROS

Dica de Livro | Kafka à Beira-Mar

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Posted on / by Nine Copetti

“Sigo as instruções e imagino uma tempestade de areia muito, muito violenta. Esqueço por completo todo o resto. Esqueço até que eu sou eu. Esvazio-me por completo. Logo, as coisas começam a emergir. Como sempre, o menino e eu partilhamos essas coisas sentados lado a lado no velho sofá de couro do escritório de meu pai.”

Haruki Murakami.

Hmmmm, bem… Outro dia eu olho melhor.

De novo esse Murakami em destaque na ilha da Cultura, deve ser bom, deixa eu dar uma espiada…

Hmmm, não. Outro dia eu levo.

– Eita, mas só dá Murakami nessas prateleiras, hein, moço?

– Pois é, dizem que o cara é bom.

– É?

– Dizem.

– Bom…

Então, deu pra vocês perceberem que a estrada foi longa até esse japa (que parece estar mandando muito bem) conseguir chegar na minha estante, né? Pois, depois de me deparar algumas dezenas de vezes com ele em diversas livrarias, depois de algumas amigas falarem muito, muito mesmo, dos seus dotes literários e sobre o fato de ele estar sempre ali na beira do Nobel, finalmente resolvi que leria esse cara. Vamos ver se é mesmo essa pompa toda que andam falando. E, como nas livrarias físicas os livros não baixavam de 40 reais, lá fui eu garimpar os e-books na Amazon (queridinha que me faz economizar uns trocos sempre)! Mas a saga da indecisão seguiu firme (em meus devaneios):

– Ah, mas esse livro com título estranho (uma alusão ao 1984, do Orwell?) eu não curti a capa nem o título. Não tô a fim, nem sou obrigada. PS: me pareceu um romance de conspirações! Será?

– Vamos ver esse outro. Hmmm, Minha querida Sputnik… não. Sputnik não era um programa russo ou soviético de lançamento de satélites onde inclusive um cachorrinho morreu em “missão”? Eita, quero não! PS: primeiros amores, romances que soam impossíveis, mulheres brilhantes. Parece bom, mas não sei, na hora não me conquistou!

– Kafka (o da metamorfose?) à Beira-Mar… É, esse parece interessante. Um rapazinho que se auto-nomeia Kafka, guerra mundial, vovôs simpáticos e muito mistério.

– É.

(e foi do carrinho do site da Amazon direto pro meu Kindíneo)

Ainda tô tentando descobrir porque fui tão teimosa e demorei tanto pra ler. A vida tem dessas coisas com vocês também?

♥♥♥

Vamos ao que interessa, chega de gracejos, né!

Haruki Murakami é um escritor japonês, nascido em Quioto, quase-premiado com o Nobel de Literatura nos últimos anos (um dia ele chega lá), com diversos livros publicados e traduzidos mundo afora.

Kafka à Beira-Mar é um romance repleto de referências desde o título, daqueles livros que rendem listas intermináveis de outros livros, filmes, músicas para buscarmos enquanto lemos. Duas histórias paralelas – com personagens tão complexos quanto o próprio enredo – que se cruzam sem se encontrarem e nos provocam inquietude. O tempo todo. Segundo a própria editora, um mix de pop japonês com tragédia grega. Bem assim!

Sinopse via Companhia das Letras:

Kafka à beira-mar é um dos romances mais ambiciosos do escritor japonês Haruki Murakami, e uma das mais surpreendentes obras da literatura contemporânea. Centrado na jornada de dois personagens, é um livro imaginativo, com referências que vão do mundo pop japonês às tragédias gregas.
Kafka Tamura é um solitário menino de quinze anos que decide fugir da casa do pai para escapar de uma terrível profecia, além de tentar encontrar a mãe e a irmã, que partiram quando ele ainda era criança. Leva poucos pertences numa mochila e não sabe nem ao menos que rumo seguir.
Sua rota de fuga irá se cruzar, inevitavelmente, com a de Satoru Nakata, um homem idoso que, após passar por um trauma inexplicável na infância, adquiriu estranhos poderes sobrenaturais. A odisseia desses personagens, tão misteriosa para eles quanto para nós, será pontilhada por provações e descobertas, numa das mais surpreendentes obras da literatura dos últimos anos.

 

De linguagem peculiar, escrita quase poética que traz metáforas e reflexões acerca das relações humanas que nos convidam a fazer algumas pausas e pensar muito antes de retornar às páginas. Cativa, instiga, convida. Uma vez que somos atraídos para a teia de Murakami é difícil conseguir escapar. Parece clichê, mas não!

A história começa com a investigação de um misterioso acidente ocorrido com uma turma de crianças acompanhadas da professora que seguiam para a floresta a procura de cogumelos (ao que parecia, uma atividade corriqueira, já na escola eles aprendiam a diferenciar cogumelos comestíveis dos venenosos). Chegados em uma determinada área, todas as crianças entraram em um sono profundo, acordando um tempo depois como se nada houvesse ocorrido. A professora não “desmaiou” e apenas um dos meninos acabou permanecendo muito tempo em coma e quando recobrou os sentidos não se recuperou como os outros.

Logo após a narrativa deste episódio, a história vai se intercalando entre dois personagens centrais, um mais interessante, ricamente detalhado e cativante que o outro.

O primeiro, Kafka Tamura, prestes a completar 15 anos, vivendo em um casarão com o pai com quem não mantém uma boa relação, abandonado pela mãe e irmã aos 4 anos. Um menino extremamente inteligente, metódico e que segue a risca o que ele próprio vai determinando para sua vida – que considera (e o próprio pai parece reforçar a ideia) carregar uma maldição dentro dele, capaz de prejudicar outras pessoas sem que se dê conta disso. Por conta desta “profecia” dada pelo pai (que diz que matará o mesmo e dormirá com a mãe e a irmã, trecho de maior estranhamento no livro inteiro, talvez) ele resolve abandonar a escola no dia do seu aniversário e fugir da casa do pai (que segundo ele, não terá sua falta sentida mesmo), carregando consigo uma mochila com tudo que considera essencial (dinheiro, celular com bateria carregada, walkman (quem lembra disso? eu amava ir trabalhar de metrô ouvindo músicas naquele trambolho) com suas músicas favoritas entre outras coisas, cuidando para que o peso não atrapalhe seus planos). Seus segredos e dúvidas existenciais ficam aos cuidados de seu amigo imaginário Corvo, uma espécie de voz interior, alter-ego ou coisa assim.

O segundo, Sotoru Nakata, um senhorzinho na faixa dos 70 anos que conta para qualquer um que cruze seu caminho ter sofrido um acidente quando criança que o deixou “analfabeto e sem alma”, sem saber ler nem escrever, nem comprar passagem ou pegar o ônibus certo. Isolado da família desde que passou a ir mal na escola, vivendo da pensão do governo japonês e de apoio esporádico do irmão, até se vira bem sozinho e tem um dom muito especial de conversar com gatos – e sim, isso já está claro nas primeiras páginas e me deixou bem feliz pra seguir a leitura. Além de entender a linguagem felina, também consegue prever alguns acontecimentos, no mínimo, esquisitos. Bem esquisitos, pra falar a verdade. Ou chover sanguessugas é natural?

Essas duas histórias de vida hora se conectam, ora se distanciam, mas sempre trazem profundas e importantes lições de vida, das que fazem a gente fechar lentamente as páginas e ficar divagando, com o pensamento longe, permitindo-nos passar um filme da vida inteira.

A mistura de fantasia, mistério e realidade torna cada capítulo muito especial. As histórias vão ganhando contornos interessantes, com uma narrativa fluída. Nakata e seus diálogos que mais parecem os meus desanuviamentos, me conquistou com sua doçura e inocência! Ele se esforça por entender o mundo e as pessoas que conseguem ser más sem se preocupar em como afetam os outros. Já Kafka é um adolescente que se destaca maravilhosamente por sua disciplina. Quem não adoraria ter um menino de 15 anos em casa que mede as consequências dos seus atos, que se prepara tão bem para uma jornada solitária em cidades que desconhece, dependendo algumas vezes de pessoas que nunca viu na vida. Realmente me deixou admirada a narrativa sobre esse menino e os rumos da sua parte da história. Sim, somos surpreendidos o tempo todo. Quando pensei que já havia entendido o estilo de Murakami, pronto, lá vinha ele com mais uma surpresa.

Ambos, Nakata e Kafka, mesmo com idades e metas distintas, são personagens focados, determinados em cumprir as missões que definiram como suas.

O início da leitura, ao contrário da maioria dos romances que já li, não dá nenhuma amostra do que vamos encontrar pelo caminho, tanto que cheguei a pensar que me arrependeria, embora o tema da guerra de certa forma já me abraçasse, as grandes surpresas são dadas em doses homeopáticas, tipo menu-degustação, sabem?

Os personagens secundários não perdem nada no quesito encantamento, cada um a seu modo me deixou feliz ao conhecê-los,  eu faria amizade com cada um deles e convidaria sem dúvida para um café. A interação que acontece entre eles e o próprio desenrolar da história – como um imenso novelo de lã macio – dá a medida da satisfação que tive ao ler, finalmente, Murakami. E mesmo sendo o primeiro romance lido, recomendo.

As passagens que trazem os diálogos de Nakata com os gatos são um caso a parte, divertidos, até os gatos conseguem ser caricatos, de um jeito que lembra os desenhos animados que eu costumava assistir quando era criança. Um deles, desanuviado como eu, não diz coisa com coisa, mistura as frases de modo que pra quem lê é impossível compreender, imaginem para o pobre e velho Nakata, que além de velho, não consegue compreender nem mesmo meia frase. Mesmo explicando mil vezes, mesmo outros gatos tentando ajudar. Mas ele dá seu jeito. E vai confiante seguir seu destino.

Cenário é outra coisa que me admirou na narrativa. Eu consegui passear pelo interior do Japão e imaginar cada detalhe, cada paradouro, cada ponte que cruzaram. O posto de gasolina, a casa na floresta, a dificuldade no caminho para chegar até lá. A biblioteca num casarão lindo, de acervo particular mas aberta ao público, com pessoas que amam livros de verdade. O beco onde alguns gatos se perdiam e onde Nakata fez plantão até conseguir as informações de que precisava como um exímio “localizador de gatos perdidos”. Tudo isso descrito e detalhado com uma riqueza que – já vou pedindo perdão por tantos adjetivos e tantas vezes repetidos aqui – emociona, encanta, arranca suspiros.

Há uma certa dose de humor e drama em todos os personagens. Uma leve caricatura que fez com que eu me lembrasse de cada um deles após o fim da leitura, exatamente do jeitinho que eram. Isso dá a medida do quanto esse livro conseguiu ser especial.

Gosto de romances sutilmente descritos, docemente escritos, sem pressa. Me parece que esse japinha é assim – pois há quem diga que ele é uma farsa entre escritores japoneses, mas isso é assunto pra outro momento. Pra mim ele deve se juntar ao Zafón, ao Gaarder e ao Gaiman no quesito fantasia e mistério. Se depender de mim, já podem até combinar uma tarde de “café com elfos” pra deixar esses escritores ainda mais encantadores. A magia acontece nas páginas por onde a escrita desses caras passa. E nas páginas de Murakami tem muito desse encantamento, não sei se remetendo à lendas japonesas, não conheço para dizer, mas o surreal mora ali. E não esperem por um romance com final – seja feliz ou não – pois até nisso ele consegue ser diferente!

Enfim, velhice e adolescência, experiências novas e velhas, medo, ressentimento, coragem e amor puro e simples se misturam. Nakata vai ganhar teu coração mesmo quando ele pensa que não tem um, Kafka vai te fazer pensar em todas as coisas que tu já deixou de fazer por não ter coragem de enfrentar a vida – ou o contrário – e hoje tu lembra com ganas de ter feito diferente. Adolescência. Velhice. Dois opostos que trazem tanto em comum, embora uma bagagem já esteja repleta de experimentações e a outra recém sendo preenchida. A vida vai contornando os sentimentos e dando novos ares, mas o mais importante é que a essência, essa nunca se desprende de nós. Para o bem ou para o mal.

Uma leitura de vivência. Se não leu ainda, leia. Se está em dúvida, como eu estive, bora logo começar essa leitura!

E se quando tu terminar, ficar sem reação e perceber que o queixo deu uma leve caída, passa aqui pra dividir esse sentimento comigo. Se odiar, pode chegar também!

Agora, se já leu, chega aqui, pega um café (ou um chá) e vamos trocar figurinhas! Me conta tudo.

Fico tão curiosa pra saber o que os outros acharam de um mesmo livro! Vocês também ou tanto faz?

Ilustração: Xiaoness, Deviantart

Ps: Felizona que minha folga de hoje rendeu um post (ou a finalização dele)! <3

Uma ótima semana pra gente!

Boas leituras pra vocês!

 

1 pessoinha leu, curtiu e recomenda esse post!

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