Um tema que gosto bastante de ler, seja em romances históricos, ficção ou biografias – ou até um misto disso tudo – é sobre a Segunda Guerra Mundial. Foi um período extremamente difícil, triste, atroz para muitas pessoas, dizem até que foi o pior até hoje (mas tenho minhas dúvidas). O Holocausto deixou marcas em muitas famílias, cidades, países e por mais doloroso que seja esse tema, eu penso que sempre é bom refletir, tentar entender o que aconteceu na época e poder lutar para que coisas assim nunca mais se repitam – e mais uma vez tenho dúvidas aqui também, pois o que acontece em algumas lugares na Ásia e na África eu não sei denominar nem medir o horror e as vezes penso que pode ser pior do que ocorreu na década de 30.

Mas voltando ao tema, encontrei esse livro – acho que foi na FNAC aqui de Porto Alegre, nem lembro mais – e claro que me chamou a atenção, acabei nem pensando muito na hora, já fui direto pro caixa, como “quase” sempre faço. Aviso: não é um romance.

Para entender um pouquinho, Thomas Harding – o escritor – é antropólogo, cientista social e jornalista, mas é também o sobrinho-neto do cara que foi descrito como o caçador do comandante do campo de extermínio de Auschwitz. E ele só foi descobrir a história da sua família quando seu tio-avô veio a falecer e eles finalmente souberam da sua atuação na Segunda Guerra Mundial através do “elogio fúnebre”.

A partir daí, com a ajuda da família e intensa pesquisa em documentos, instituições pelo mundo inteiro, em arquivos que só foram liberados para pesquisa pública à pouco tempo (para se ter uma ideia da extensão da gravidade desse fato histórico) Thomas foi construindo não só a biografia do seu tio-avô, o judeu alemão Hanns Alexander, que após a pressão para que sua família se exilasse e conseguisse fugir das atrocidades da guerra, resolveu servir ao exercito britânico e assumir a caça aos cabeças do Nazismo, mas também do cara que foi responsável por no mínimo 2 milhões de mortos no campo de Auschwitz, Rudolf Höss, um alemão aparentemente pacato, que gostava da calma da vida rural, que formou família, teve filhos e sonhava em levar sua vida em uma casinha simples no campo, plantando e vivendo sossegado. Quem diria?

“Ao chamar Hanns e Rudolf pelo primeiro nome, não tenho a intenção de colocá-los no mesmo nível. De fato, é importante para mim que não haja uma equivalência moral. Contudo, ambos foram seres humanos, evidentemente, e como tais, se vou contar a história deles, devo começar com seus nomes. Se isso for ofensivo, e entendo porque possa ser, peço que me perdoem”.

Thomas Harding

O resultado está nesse livro, uma dupla biografia, cuidadosamente montada e enriquecida com detalhes pra além da história. Sem defender ou acusar um ou outro, da forma mais neutra possível, Thomas conseguiu traçar o perfil psicológico desses dois personagens no período da guerra, delineando cada um com todas as particularidades, todas as fraquezas e sonhos inclusive, de dois homens como outro qualquer, mas que tiveram nas mãos a chance de desviar o curso da história do holocausto e o fizeram, para o bem e para o mal.

Sinopse via Skoob:

No elogiado ‘Hanns e Rudolf’, o jornalista britânico Thomas Harding conta a história de duas vidas que se cruzam ao final de um dos episódios mais sangrentos da históris: a de Hanns Alexander, judeu-alemão que se mudou para a Inglaterra, nos anos 1930 e, ao final do conflito, liderou uma caçada contra os nazistas a serviõ do exército britânico, e a de Rudolf Höss, fazendeiro e soldado que se tornou comandante-chefe de Auschwitz, o maior campo de extermínio de judeus da Segunda Guerra Mundial. Sobrinho-neto de Hanns, Harding empreendeu uma ampla pesquisa para escrever a biografia dessa duas figuras díspares, com imparcialidade e sem maniqueísmo. O resultado é uma narrativa eletrizante que recebeu críticas positivas dos principais jornais norte-americanos e britânicos e figurou em importantes listas dos mais vendidos nos EUA e na Europa.

Parar e pensar em cada família que sofreu as atrocidades dessa época, em cada cena nos campos de concentração ou em outras partes onde a Guerra estava ativamente presente, de todas as cidades que foram destruídas, das pessoas que foram enganadas ou que enganaram vizinhos, amigos de infância, por um “ideal”. O cenário descrito dá só uma ideia do horror dos dias passados naqueles lugares, não consigo acreditar que soldados alemães não sentissem nada assistindo ao massacre diário.

Dachau foi o primeiro campo de concentração criado, tinha a finalidade de receber presos políticos, em sua maioria, opositores ao regime nazista. Era um exemplo de eficiência e servia como modelo quando a mídia queria fazer reportagens ou fotografar o local. Na verdade um belo disfarce que servia para criar uma propaganda e atmosfera positiva em relação as atitudes questionáveis do governo de Hitler. As barbáries aconteceram desde o início e só aumentavam com o passar do tempo. Em uma de suas declarações sobre a sua atuação ainda no campo de Dachau, Rudolf disse (Hanns & Rudolf, pág 81):

“Eu havia me adaptado a todos os aspectos que não podiam ser mudados na vida do campo de concentração, mas meus sentimentos nunca ficaram entorpecidos diante da miséria humana. Sempre a vi e senti. No entanto, eu precisava superar aquilo para não parecer compassivo. Queria que me achassem um homem duro para evitar ser considerado fraco.”

Quando Rudolf foi finalmente nomeado comandante do campo de Auschwitz, já era outra pessoa, como se tivesse entrado no automático, tanto que muitas vezes dizia que eram apenas ordens a ser seguidas e ele precisava confirmar sua eficiência todos os dias, mesmo que isso significasse matar milhares de inocentes.

Já para Hanns a história foi ao encontro da de Rudolf. Sendo de familia judia-alemã, por mais que tentassem resistir em ficar, logo precisaram se exilar, a família toda e aos poucos, para Londres. O pai de Hanns, um médico bastante conhecido e requisitado, inclusive entre os alemães, perdeu mais da metade de suas posses nessa jornada, perdeu consultório e clientes e teve que começar praticamente do zero no país que o acolheu. A Inglaterra estava aliada com outros países contra a Alemanha, Hanns, vendo todo o horror se espalhar rapidamente, deu um jeito de se alistar no exercito inglês, e foi através de suas funções ali que finalmente chegou no topo, podendo “caçar” os culpados por todo aquele cenários que a gente prefere não lembrar. Mas, principalmente, caçar o comandante de Auschwitz. Também pudera, os relatos dele já ao final da guerra, quando a Alemanha mesmo não querendo, obrigou-se a recuar, eram pesados demais (Hanns & Rudolf, pág. 165):

Os prisioneiros vivos estavam tão esqueléticos que as costelas saltavam para fora do peito. Mães se agarravam as crianças mortas, sobreviventes de cabeça raspada, em uniformes listrados de preto e branco, olhavam para o nada em decrépitos barracões de madeira, avisos pintados alertando para o perigo de tifo estavam por toda parte. Não havia água, comida ou abrigo, e tampouco qualquer suprimento médico adequado.

“Tinha sido aberto dias antes. Ainda não estava desobstruído. Ficou fechado para que o tifo não se espalhasse pela Alemanha inteira. Os guardas da SS não estavam mais lá, mas haviam húngaros que não eram muito melhores que os nazistas. Antes de começar a interpretar, havia a questão de limpar o campo. Todos fizeram o que podiam. Havia corpos mortos andando, corpos mortos deitados, gente que achava que estava viva, mas não estava. Era uma visão terrível. Cada vez que alguém entrava ou saía do campo, era borrifado com DDT.”

Hanns carregou centenas de corpos para a vala comum. […] Os soldados ingleses ficaram profundamente chocados com o que encontraram em Belsen, mas a reação de Hanns foi diferente. Aquela atrocidade tinha ocorrido em seu país de nascimento, e a maioria das vítimas era de judeus, seu povo. Ele entendia o alemão que os prisioneiros falavam, eram pessoas com quem compartilhava o histórico e o contexto. A história deles poderia facilmente ter sido a sua. Para Hanns, ali era o seu lar, e não haveria trégua. Foi como se Belsen tivesse ligado um botão dentro dele. […] Pela primeira vez na vida, Hanns se sentiu compelido a agir.

Acho que foi uma das leituras mais difíceis que já fiz, e olha que já li um bocado de livros sobre o assunto, tão tenebrosos quanto esse. Mas por ser uma biografia, saber que tudo aquilo ali de fato ocorrreu muito próximo do que está registrado (ou até pior) faz com que a gente se sinta também compelido – talvez não a agir, porque na maioria das vezes somos fracos para o que está distante da nossa realidade e não nos atinge como um golpe – a refletir, a repensar e tentar compreender essa época tão marcante na história mundial.

Para quem se interessa de fato pelo assunto e tem “estômago de barata” como dizem por aí e aguenta numa boa cenas pesadas demais para um ser “humano” de fato, recomendo muito. É um pequeno trecho desse período, mas talvez o mais importante tanto para judeus quanto para alemães.

No final de sua pesquisa, o autor faz uma visita ao campo de Auschwitz, que hoje é aberto à visitação. É preciso ter mais coragem ainda do que ler um livro. Mas nos dá uma ideia da sensação de estar lá, sentir a energia do lugar – que não deve ser nada agradável, mas que sempre pode nos transformar um pouco mais.

Antes de Hanns & Rudolf, li A Menina que Roubava Livros, A Bibliotecária de Auschwitz, O Menino do Pijama Listrado – e talvez tenha lido outros que não lembro agora. Inclusive, acabo de me dar conta de que não fiz resenha do A Bibliotecária (já vou dar um jeito nisso). Também assisti muitos filmes e documentários, se vocês forem ao nosso amigo Google vão encontrar muita coisa. Assisti alguns pelo Netflix, outros pelo Apple TV.

Alguns dos títulos que me lembro, nem todos fieis à história, alguns holliwoodianos demais, mas todos ajudam a entender um pouco mais os fatos:

 A Lista de Schindler

 A Vida é Bela

 O Menino do Pijama Listrado

 Olga

 O Diário de Anne Frank

 Bastardos Inglórios

 Caçadores de Obras Primas

 Um sinal de esperança

 Operação Valkíria

 O Corajoso Coração de Irena Sendler

Muitos desses filmes são adaptações de livros, alguns baseados em histórias reais e outros, sátiras sobre o nazismo. Todos valem a pena, tomadas as devidas proporções. Nada como bons livros de história pra chegar o mais perto da realidade do que ouvimos desde criança.

Se vocês lembrarem de mais alguns filmes ou livros, deixem nos comentários…

E se já assistiram ou leram alguns desses acima, me contem também, adoro saber, trocar figurinhas sobre o tema, tá!

Um beijo grande,

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

2 comentários

Dica de Filme / Série / Documentário | 3 dicas em 1 post – Desanuviamentos · 21 de fevereiro de 2017 às 21:56

[…] Dica de Livro | Hanns & Rudolf […]

Dica de Filme / Série / Documentário | 3 dicas em 1 post · 20 de julho de 2015 às 18:29

[…] Dica de Livro | Hanns & Rudolf […]

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