“Não há ‘durante’ quando se morre, Estela. Há somente um estar ou não estar mais na vida.”

De volta à casa.

Acabo de me dar conta que não havia escrito uma linha sequer em 2018 ainda (já estamos quase na metade do ano), e isso me deixou inquieta. Precisava vir aqui escrever algo. Logo.

Então, vamos lá… Pega um café e te aprochega que hoje tem dica de uma leitura bem especial que terminei ontem e preciso logo compartilhar contigo!

Assim como não ando escrevendo, também minhas leituras andaram minadas pelo vicio tenebroso das redes sociais. A fotografia vem me ganhando e os textos realmente acabaram ficando pra trás. Mas daí, dias atrás, recebi de presente esse livro: “Estela sem Deus”, que foi escrito por Jeferson Tenório, escritor nascido carioca e de alma porto-alegrense.

“- Estela está neste livro porque precisava existir. Na verdade Estela sempre existiu. […] Eu apenas apurei os ouvidos e descobri sua voz.”

“Estela…” é seu segundo romance e chegou a ter duas outras versões até chegar a esta história e ser definitivamente publicado. Já adianto que valeu cada revisão, porque não poderia ter ficado melhor. A publicação saiu pela Editora Zouk, que é daqui! <3

Posso começar dizendo que já fui atraída para a leitura desde o título mesmo (Deus ou a falta dele é um tema que me interessa pessoalmente, que tenho muita curiosidade de explorar em suas diversas facetas) até a capa dramática, em preto e branco, repleta de pedras e a espuma da água do mar encontrando-as – essa cena me inquietou de tal forma, como se o que eu enxergasse ali fossem órgãos, um coração humano, fragmentos de várias vidas. Não sei até onde isso é uma grande viagem da minha cabeça, mas me detive por bons minutos olhando e tentando compreender o que meus olhos viam e meu cérebro percebia.

Vamos à história. Temos Estela, uma menina de 13 anos, entrando na adolescência, com todas as dúvidas pertinentes a idade, a mudança do corpo, a afirmação da passagem de menina para mulher com o “agravante” da cor da pele; Augusto, seu irmão mais novo, ainda pequeno demais para entender o drama da vida; e sua mãe, Irene, que vive das faxinas que faz, mesmo com as mãos em ferida pelas alergias graves aos produtos de limpeza. Temos ainda, logo no início da narrativa, a vó Delfina – uma sábia (ou uma filosofa, segundo as conclusões de Estela) – muitas vezes ela será lembrada durante os capítulos.

A narrativa é toda na voz da pequena grande Estela, todas as reflexões, mesmo durante os piores momentos, todas as pausas importantes, as questões mais sérias, são levantadas de forma linear e constante. A lógica natural, própria do pensamento infantil, ainda intocado pelo julgamento e pelos vícios do adulto, faz com que a gente pare e repense junto com ela tudo o que vivemos até aqui, tudo pelo que lutamos e o quanto ainda estamos atrasados. Machismo, violência, racismo, indiferença… tudo está exposto, é o dedo na ferida. Estela narra sua própria história e vai traçando esse panorama triste e tão conhecido da gente, embora ainda muito ignorado, de quem é: mulher, mulher negra, mulher negra da periferia. E que a vida parece ir levando cada vez mais pro fundo do poço, uma vida inteira remando contra a maré, fazendo com que cada luta seja maior que a outra, exaustivamente brigando pelo direito de simplesmente seguir em frente.

Por vezes até esqueci que o autor é um homem. E acho bem importante ressaltar: escritor  brasileiro, negro, de universidade pública (formado pioneiramente através das cotas), que luta por representatividade, por presença natural (não imposta ou combinada para cumprir uma “obrigação”, em todos os lugares, principalmente no cenário literário, nos eventos literários, nas prateleiras das livrarias, nas bibliotecas das escolas. Acho que ele vem cumprindo seu papel brilhantemente.

Retomando a leitura, eu não sei dizer se foi pelo tema tão atual ou pela maneira engajada e ao mesmo tempo tão delicada (acho que não seria bem essa palavra que eu gostaria de dizer, mas permeada de ternura, tendo em mente que se trata de uma perspectiva narrada pelo olhar de uma criança de 13 anos, mas a leitura fluiu exatamente como toda boa leitura deve fluir e eu precisei ir medindo as páginas para não terminar tão rápido – eu não queria abandonar Estela.

Alguns trechos foram tremendamente chocantes, duros de se ler, imagine de se viver. E inquietam tanto porque é brutal mesmo viver uma realidade tão crua e que parece sangrar apenas em quem vive na pele a dor da violência diária, seja ela qual for, quando na verdade todas nós sangramos um pouco ao saber ou vivenciar essas atrocidades.

Outra coisa, fora todo o sistema estar contra Estela e sua família: Estela sonha ser filosofa, embora nem saiba direito o que isso significa; ela sonha em estudar, ser alguém. E o que ela sabe até agora é que filósofos pensam muito na vida.

Estela é uma menina que gosta de olhar o céu e pensar na vida. E desconfia muito que sua avó e sua mãe sejam grandes filosofas. Se inspira na força e nas palavras sábias das duas.

“As filósofas são assim: dizem palavras que só vão fazer sentido depois de terem feito certas voltas dentro da gente.”

Como a história se passa entre Porto Alegre e Rio de Janeiro, fica muito fácil imaginar os cenários por onde eles andam, a cada mudança, cada tropeço, cada rasteira da vida que vai levando-os pelo mundo, contando com a boa vontade das pessoas e com um pouquinho de sorte do universo. A humanidade é desumana mas ainda há quem estenda a mão, mesmo que a impressão na maior parte do tempo seja mesmo de total desamparo.

“A gente teve de se acostumar com a vida vindo assim, a galope.”

Cada capítulo, cada queda, cada batalha perdida, cada volta por cima pela metade, cada violência calada, cada tristeza guardada na margem esquerda do coração, cada lágrima que não deságua, cada pequena vitória (um copo de água gelada por favor, seu moço), a primeira menstruação, as primeiras regras distorcidas, o que ninguém ensina. A liberdade genuína do corpo feminino arrancada pelo machismo, por aquele machismo que nós mulheres, nós mesmas, seja pela educação pautada nesse machismo, no patriarcado, enfim, vamos herdando e repassando eternamente sem perceber onde vamos sempre parar. Estela com toda sua inocência vai nos mostrando tudo que vamos perdendo na jornada de nos tornarmos mulheres.

“Minha mãe não perguntou se eu estava com cólicas; parecia apenas preocupada com meu asseio. A menstruação era uma espécie de vergonha com a qual tínhamos de aprender a lidar. Nosso sangue tinha de ser educado para se esconder dos olhos dos homens. […] Pensar no meu sangue me entristecia. Queríamos ser livres. Eu e meu sangue.”

No caminho desse amadurecimento e como ponto central da história, a religião. A importância que se dá às crenças e como elas moldam ou limitam o comportamento, inclusive reafirmando o machismo cruel de cada santo dia. Desde os terreiros de Umbanda até os cultos da igreja e aconselhamentos com o pastor, o que Estela mais se dava conta era das perguntas que se amontoavam em sua cabeça em busca de respostas. Quando mais ela questionava, mais o universo lhe trazia dúvidas. Quando mais ela crescia, amadurecia, seus hormônios afloravam, seus pecados não pareciam pecados, seus erros pareciam tão pequenos diante da maldade do mundo.

“Foi só mais adiante na vida que descobri que Deus também era minha mãe segurando uma faca.”

“Mais tarde eu me daria conta de que eu já estava me tornando uma filósofa porque aprendi a observar. Talvez tenha sido a vida ou mesmo a falta de Deus que me deixou mais atenta.”

Esse romance poderia ter sido escrito por uma mulher, a forte inspiração para Jeferson Tenório ter escrito “Estela sem Deus” ter vindo das vivências da sua própria mãe são um forte indício de que se espelhar e ter empatia (mesmo parecendo tão obvio para alguns) pode dar certo. Ele consegue traduzir em romance praticamente todas as batalhas enfrentadas ainda hoje por nós. Ele teve a sensibilidade de construir uma história triste e forte, real e cotidiana. Cruel e delicada, mostrando a fragilidade que se transforma em fortaleza.

Estela representa tantas. Todas. Não só Estela, mas a mãe, a avó, a tia, a amiga da mãe, a vizinha, a prima de Estela, as conhecidas e desconhecidas.

O livro termina e a reflexão ecoa dentro da gente. Uma leitura tocante, dramática, que vai além da ficção, entrando na vida da gente pra ser o tal “agente de mudança”, a chave que precisa ser virada. Leiam. Reflitam e transformem o meio. Juntas somos mais fortes.

PS: sou a rainha dos spoilers, consegui me concentrar no tema e não tanto na história pra não pisar na bola com vocês, fiquei tentada a citar aqui um trecho marcante demais do último capítulo (estou até agora com ele gritando dentro de mim) e acho que vocês precisam conhecer Estela já. Estela e Jeferson Tenório. <3

Boas leituras!

 

4 pessoinhas leram, curtiram e recomendam este post!

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

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