[ o importante é que de quando em vez a gente aparece, né, pra escrever alguma coisinha por aqui, desenferrujar os dedos e os neurônios ]

Quando li Muriel Barbery pela primeira vez, foi em A Elegância do Ouriço e isso já tem algum tempo, tanto é que o post sobre ele deve ter se perdido ainda lá no meu último blog, Devaneios de Chocolate (já desativado há anos). Lembro perfeitamente da leitura e também que gostei muito do estilo da escritora, muito por ela construir um romance que me lembrava Jostein Gaarder (outro que já li muito e acho que quase não comentei nesse blog) e seu estilo com abordagem filosófica dirigida à um público mais jovem, mas que acaba agradando todas as idades.

Quando lançaram seu novo romance por aqui, logo tratei de garantir o meu (claro que acabou relegado a fila quase eterna…)e no mês passado comecei, finalmente, a leitura dele. Acabei uns dias atrás e vou explicar um pouquinho porque esta leitura pareceu interminável, apesar de relativamente curta.

A Vida dos Elfos é um livro de ficção francesa, de escrita leve, singela, de puro deleite; com capítulos em sua maioria, breves; ora em formato de conto, ora lembrando uma fábula ou um romance, sem perder o ponto, sem se desconectar nem por um instante da sua essência criativa.

Sinopse:

Maria e Clara são jovens órfãs ligadas por dons secretos. A chegada de Maria traz prosperidade à granja francesa onde é criada, enquanto Clara, crescida em uma aldeia do sul da Itália, é enviada a Roma para desenvolver sua veia musical prodigiosa. Cada uma à sua maneira, elas se comunicam com um mundo misterioso, que garante profundidade e beleza à vida humana, mas, ao mesmo tempo, oferece uma ameaça grave contra a nossa espécie. Só Maria e Clara poderão combatê-la.

Um romance – como eu disse – para ler devagar, em doses homeopáticas, se deixando embalar pelo resgate de palavras adormecidas, pela magia da descrição dos cenários que nos envolvem como uma bruma, pelo encantamento que naturalmente nos abraça enquanto se desenrolam mistérios e se desvendam enigmas…

Enquanto as histórias passeiam – hora pela vida da pequena Maria, em uma granja na França, onde parece conversar e se entender perfeitamente com a natureza, trazendo prosperidade para aquele lugar; hora pela vida de Clara, que foi enviada à Roma para aperfeiçoar seu dom  para a música e que também parece ter uma aura de magia que faz com que entenda partituras só de passar os olhos por elas, algo acontece num mundo que parece estar totalmente a parte desse que conhecemos tão bem (ou não).

“Embora desconfiasse de que a partitura não tinha ligação nenhuma com essa magia, mesmo assim foi até o piano e tocou o trecho, que apenas lançou no ar um perfume de correntezas e terra molhada e um mistério em forma de rastros arborizados e emoções roubadas.”

A delicadeza com que a história das duas é contada, a forma com a vida delas vai se desenrolando mesmo sem se conhecerem e como tudo vai se delineando para o encontro delas é realmente tocante. Diferente de tudo que já andei lendo, me envolveu desde as primeiras páginas, quando as duas personagens, então separadas de suas famílias, são recebidas por novas e dedicadas famílias que têm nas mãos a responsabilidade de zelar pela segurança delas, que descobre-se, ameaçadas por uma força maior e um tanto sobrenatural.

A descrição dos cenários “élficos” surgem sutilmente, como visões que as duas meninas têm quando algo ou alguém parece estar em perigo. Surgem alguns seres e algumas situações que colocam a prova até mesmo a crença de um velho padre da aldeia. Brumas, tempestades, neve fora de época, escassez de frutos e caça… tudo faz com que as ameaças pareçam estar cada vez mais próximas e o fim parece ser inevitável para os aldeões e suas famílias.

“[…] pensava que a menina tinha algo mágico, mas o que se dava por certo é que ela se movia de um jeito inabitual para uma criança tão pequena, levando consigo um pouco da invisibilidade e do tremor do ar, como fazem as libélulas ou as folhinhas ao vento.”

A força da natureza aliada aos poderes literalmente mágicos das duas meninas fazem com que a história ganhe essas pitadas de fantasia, como se tivéssemos adentrado um conto de fadas, talvez atravessado o roupeiro para Nárnia ou visitado jardins onde além de pirilampos, também avistamos faunos, elfos e criaturas afins (até mesmo unicórnios <3 ).

Existem segredos que precisam logo serem desvendados, mistérios para resolver, histórias de vida para contar e uma guerra em que o mal precisa ser combatido a qualquer custo. A beleza com que a escritora narra a relação das pessoas com a natureza ganhou meu coração, é um resgate de valores que se perdeu há muito tempo, assim como a cultura milenar chinesa valorizava seus jardins encantados, assim como os índios tinham sua relação de respeito para a sobrevivência através dela, em A Vida dos Elfos isso é abordado o tempo todo. Como tudo se encaixa, se completa, como a natureza responde quando a respeitamos, quando entendemos que é preciso compreender que dependemos dela para seguirmos em frente. Enquanto houver equilíbrio e responsabilidade quanto ao uso do que a natureza tem a oferecer, o mundo estará em paz. Mas como toda história tem um lado “mau”, é preciso que todos se empenhem e lutem com todas as armas para que as estações voltem às suas épocas, as tempestades deem sua trégua, o amor prevaleça e possa enfim reinar a paz, como todos sonham.

“Um arrepio o atravessou e depois deu lugar à esperança do garotinho que outrora brincara com as plantas do riacho e ele soube que o que estava separado se uniria, que o que estava cindido se harmonizaria, ou então todos morreriam e só o que teria importância era ter desejado honrar a unidade do que estava vivo.”

“A terra ficou tão limpa e seca como no verão, e entre nuvens brancas como pombos o céu se manchava de um azul de soluçar de felicidade.”

E o quanto é bonito acompanhar a apresentação, logo no início, da intuição e da sensibilidade das meninas “das Itálias e das Espanhas”, principalmente a relação de Maria com as pessoas da granja, suas tentativas e sua preocupação em salvar as pessoas, em deixá-las todas seguras na aldeia, até ter noção dos seus poderes e do quanto sua presença ali é um risco para todos. Enquanto em outro país, Clara vai aos poucos descobrindo sua verdadeira história, suas origens, de onde vêm seus poderes especiais e sua ligação com Maria. Ela tem como protetor um elfo que adora um moscatel e vive dormindo ou bêbado (ou as duas coisas) mas tem um coração gigante; ela descobre que a musica é caminho para conhecer Maria e tem sobre si o peso de uma guerra diferente de tudo que ela já conheceu, apesar de tão pequena.

Para quem passou a infância ouvindo ou lendo as grandes fábulas, para quem é fã de filmes como O Labirinto do Fauno, Crônicas de Nárnia e até Harry Potter, posso dizer que vai se deleitar com esse livro. Ele não chega ao nível desses que citei, de forma alguma, mas nos faz relembrar o tempo em que acreditávamos nas magias e nos seres de um mundo à parte, onde tudo era possível, onde a poesia tinha seu lugar e seu encantamento. Onde as estrelas iluminavam os caminhos, as nuvens se enchiam de sonhos e a neve era capaz de transformar os dias de quem se deixasse levar. Onde o orvalho era o pozinho mágico que resolvia tudo num sopro.

As brumas que nos fazem viver nos sonhos, as guerras que nos permitem escolher de que lado lutar, a natureza que nos ensina a simplicidade e a humildade, o respeito e a integração com o que nos rodeia, a reconhecer nosso espaço na terra, as pessoas de bem que trazem no olhar o brilho da esperança, o ciclo da vida que jamais se encerra, apenas dá lugar a quem for a vez de chegar. E continuar a batalha.

Este livro não termina aqui, esperamos ansiosos pelo segundo volume, ainda sem data de lançamento.

Se mais alguém leu, me conte o que achou.

Se ainda não leu e está sentindo saudades da magia que permeava nossa infância, esse é o livro, esse é o momento! <3

Uma linda semana pra vocês!

Beijos,

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

4 comentários

Claudia · 17 de julho de 2016 às 17:55

Fiquei com água na boca e pedi o livro por sua causa!
Vou ler e volto pra te contar
Amei a resenha, Nine querida :)
Bjs

    Nine Copetti · 17 de julho de 2016 às 22:39

    Clauo, tomara que tu goste! Ele é tão poético, e vai ter continuação…

    Um beijo enorme! <3

Graziella · 12 de julho de 2016 às 10:09

Meu Deusssssss Nine do céu que resenha lindaaaaaaaa!!!!!!!!! <3

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