Quando eu contar a minha história, eu dizia a mim mesmo, começarei dai. Do momento em que a manivela do projetor começa a girar.
A minha história está toda naquele espaço antes da parede.
Acreditem ou não, trata-se da história do homem que inventou o cinema antes dos irmãos Lumière ou do bioscópio de Max Skladanowski.
Uma arlequinada em preto e branco para a noite de Natal.
Uma pantomima romântica em um mundo de serragem, risadas e lágrimas.

Minha maior vontade dentre as biografias todas que aí estão, é ler sobre a vida de Charles Chaplin. Desde pequena assistia com meu pai aqueles filmes estranhos, sem cor, sem som, mas que conseguiam arrancar risos, até gargalhadas, de mim, tão pequena, tão atenta já!

Quem não se divertia assistindo as pantomimas de O Vagabundo, O Gordo e o Magro ou Os Três Patetas? Eu me divertia com meu pai. Adorava a graça e a leveza daquelas cena… E, como era possível que pequenos gestos tivessem tanto significado? Era uma dança no silêncio, acordes subliminares, olhares cheios de peraltice.

Mas sem dúvida, o que mais acalentava meu coração de criança era o Carlitos. Ele trazia um charme todo especial quando encenava! Toda a construção dos seus personagens fascinava. A gentileza, a doçura, a graça, a reverência, as pequenas trapaças…

Bem, a biografia de Chaplin está em falta na Livraria Cultura, e pelos sites que andei pesquisando também. Ainda não passei nos sebos da cidade para alguma tentativa e esperança, mas aproveitando a deixa, trouxe pra casa, além de Luzes da Ribalta mais recentemente, este livro que dou a dica pra vocês agora: A última dança de Chaplin. Anotem!!!

E mais uma vez o velho e manjado jogo de comprar livros atraída pela capa. Tão azul, tão inspiradora, tão charmosa com a silhueta de Charles Chaplin entre a tipografia em degradê! Trouxe na hora, sem pensar… E tenho que dizer, assim costumam render as melhores escolhas. O ímpeto as vezes é um sopro, uma intuição. Com livros? Também! Me contradizendo? Claro! Mas algo de mágico acontece nas vezes em que esse filtro para escolha de livros funciona!

Um dia sem sorriso é um dia desperdiçado. 

O escritor é o italiano Fabio Stassi, que resolveu transformar um pedacinho da história desse ator que muitas vezes se mistura e se confunde com seus personagens, em ficção. Se deteve em seus últimos anos de vida, já quando não mais atuava, no alto dos seus 80 anos, quando finalmente a Morte veio lhe buscar.

A comicidade fica por conta dos diálogos com a senhora Morte, Natal após Natal, quando ele tenta, em vão, fazê-la rir de suas cenas memoráveis, mas acaba arrancando gargalhadas dela por um motivo bem da vida real: a velhice, o fim da vida e o ridículo (na visão da Morte) de tentar reviver um papel que já não cabe mais ali! A hora do Vagabundo se despedir do palco da vida chegou… E precisa ser em grande estilo!

O drama, o romance em si e a parte mais interessante desse livro com ares de biografia está costurado nas cartas que ele deixou ao filho, contando coisas da sua vida que nem na biografia autorizada ele ousou relatar. Histórias, dificuldades, descobertas, lições que poderiam servir para que o filho conheça mais profundamente o pai, entenda tudo pelo que passou na juventude e em toda a vida, e, quem sabe, aplique a sua própria vida.

Tudo é a mesma semeadura, o mesmo punhado de areia. Assim como o silêncio, que é repleto de palavras, e o tempo, feito de recordações como uma raiz.

Os relatos desde a infância em Londres, a vida com o irmão, as dificuldades de se fixar em empregos, os aprendizados, as rasteiras da vida, o amor e a carreira de sucesso que trilhou por tantos anos, se consagrando não só um ícone do cinema mundial, mas referência eterna aos que se arriscam nessa arte.

Há passagens sobre seu trabalho em circos, com tipografias, algumas atuações como ator em início de carreira, desilusões e muito trabalho não reconhecido até finalmente ter sucesso com seus filmes.

As dificuldades familiares, com pais separados, pai alcoólatra, mãe “louca”, restando ao irmão a responsabilidade de cuidá-lo, tentando lhe dar apoio e fazê-lo seguir em frente com seus sonhos.

Gente, sério, eu preciso muito da biografia dessa figura!

Assim ele inicia a primeira carta ao seu filho:

Caro Christopher James,
Esta noite, celebrarei meu octogésimo oitavo Natal com a família, como os últimos, e a história que estou prestes a escrever é o presente que decidi lhe dar. Com você, tenho uma dívida que não pode ser saldada. Você é meu último filho, tem apenas quinze anos e eu o concebi quando já tinha mais de setenta. Você crescerá sem mim. Por isso, preciso me apressar antes que a minha morte cause alvoroço em todo o planeta. Segundo o que me disse uma cartomante de São Francisco em 1910, eu já devia ter morrido de broncopneumonia há seis Natais, após ter tido muita sorte durante toda a vida. Há seis anos, a cada Natal,  a Morte vem me procurar. Senta-se à minha frente e me espera. 

Sinopse:

Na noite de Natal de 1971, Charlie Chaplin recebe a visita da Morte. O famoso ator está com oitenta e dois anos, mas ainda não se sente preparado para ver as cortinas se fecharem uma última vez. Desesperado por acompanhar o crescimento do filho mais novo, o ator propõe à Morte um acordo: se conseguir fazê-la rir, ganhará mais um ano de vida.

Enquanto espera o encontro fatídico, Chaplin escreve uma carta para o filho, contando a ele seu passado: da infância pobre na Inglaterra, com o pai alcoólatra e a mãe louca, ao auge do sucesso nas telas de cinema dos Estados Unidos, passando pelo circo, pelo vaudeville e por empregos estranhos, como tipógrafo, boxeador e embalsamador.

Ao revisitar a seu modo a trajetória do gênio da comédia, combinando elementos reais à mais pura ficção, Fabio Stassi narra também a história do próprio cinema e de como aquele simples feixe de luz sobre uma tela branca incendiou a imaginação de toda uma nação. Stassi soube captar a alma de Chaplin e conduz com habilidade o leitor por uma narrativa bela e comovente.

Eu fiquei encantada com esse livro, li com o coração e fiquei ainda mais animada pra ir em busca da biografia, da coleção de filmes, da história do cinema mudo e tudo mais que envolve o mundo de Chaplin. O escritor soube magistralmente misturar realidade e ficção, unindo os melhores trechos a sua fantasia própria, fazendo desse um belo romance.

Um livro pra rir, pra chorar, pra vibrar e pra desejar ter vivido alguns anos ao menos na presença ilustre d’O Vagabundo.

Recomendo e digo que já sinto saudades dessa leitura. ♥️

Escolhi, então, calças deformadas, abotoei com dificuldade um colete é um paletó bastante justos e calcei sapatos enormes e gastos. Olhei-me no espelho. Nunca havia me sentido tão à vontade. O meu traje era uma desobediência. Acrescentei um chapéu-coco, uma bengala e uma gravata-borboleta. Só faltava um detalhe: agitei os cabelos, colei sob o nariz um bigode preto e, pela primeira vez, soube qual era o meu rosto. 



E vocês, me contem o que andam lendo? Querendo mais dicas… Minha biblioteca está em reforma, breve terei espaço pra mais alguns, uhuuuu!!!

Beijo grande, uma ótima semana pra voces!

Signature_Nine

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

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