“Se você precisa errar, erre pela audácia”. Sarah Grimké

Ah, tão bom quando a gente encontra aquele livro que prende desde a primeira página, né! Nada supera a alegria – pra quem ama uma boa leitura – de um livro bem escrito e ao mesmo tempo, leve, sobre um tema importante e marcante pra humanidade como foi o período escravista.

Um assunto delicado que ainda hoje gera desconfortos para quem visita museus temáticos ou para quem é descendente ou de alguma forma ligado a pessoas que viveram na pele essa época.

No caso de A invenção das asas, a história se passa no início do século XIX, no sul dos EUA, mais precisamente em Charleston, uma cidade com forte cultura escravista.

Esse livro é de uma delicadeza e de um encanto extraordinários, logo nas primeiras páginas já me encantei com as meninas que darão o tom dessa aventura: Sarah Grimké (a sinhazinha, filha de uma família escravocrata da alta sociedade de Charleston) e Hetty “Encrenca” Grimké (escrava da família que é “dada” de presente à Sarah – para ser sua dama de companhia, no seu aniversário de 11 anos). Mais ou menos assim a história começa e só tende a melhorar (e a situação a piorar, para as duas).

O livro relata os próximos 35 anos à esse fato, as idas e vindas da mais nova amizade, as transformações, as ironias, a hipocrisia e a batalha diária travada entre: escravizados, escravocratas e abolicionistas. De arrepiar!

Fala sobre as dificuldades, as condições, as leis escravistas da época, os muros imaginários, a luta pela liberdade dos negros e também das mulheres. Em um mundo onde brancos comandavam e negros submetiam-se a todo tipo de trabalho e humilhação, surgem duas garotas totalmente diferentes mas iguais em tantas coisas, surgem duas meninas – uma em cada ponta do iceberg – com o desejo de mudarem o mundo à sua volta, custe o que custar: inclusive se afastar da família, deixar amores para trás, brigar com gente grande, ceder aos absurdos do regime,até o fim!

Muito antes de ser uma história, esse livro é capaz de mostrar a luta das mulheres por um espaço digno, verdadeiro e ilimitado. Liberdade, poder de voz, espaço para agir como cidadã antes de qualquer classificação. Faz refletir, faz reviver momentos difíceis que levaram anos para serem modificados.

Sinopse:

Sue Monk Kidd apresenta uma obra-prima de esperança, ousadia e busca pela liberdade. 
Inspirado pela figura histórica de Sarah Grimke, o romance começa no 11º aniversário da menina, quando é presenteada com uma escrava: Hetty “Encrenca” Grimke, que tem apenas dez anos. Acompanhamos a jornada das duas ao longo dos 35 anos seguintes. Ambas desejam uma vida própria e juntas questionam as regras da sociedade em que vivem.

Essa sinopse da Companhia das Letras resume bem a ideia central do livro: questionar as regras da sociedade e tentar mudá-las, custe o que custar. Sarah é naturalmente questionadora e seu pai estimula suas ideias e apoia suas discussões com os irmãos mais velhos enquanto isso lhe parece uma brincadeira boba, mas quando ela percebe que os escravos são maltratados e se vê obrigada a aceitar como presente a filha de uma das escravas da sua mãe, as coisas começam a mudar em sua cabeça e o tom de seu pai também começa a mudar, inclusive o discurso  apoiador. O que antes era interessante e até colaborava para o crescimento de Sarah agora é empecilho, ela é impedida de ter aulas que não sejam as destinadas à “mulheres”, é convidada a se retirar da sala quando seus irmãos entram em discussões políticas, inclusive sobre a situação do escravismo no país.

Encrenca é uma menina encantadora, terrível, arteira, vive aprontando das suas. Quando foi apresentada com um laço de fita cor lavanda preso ao pescoço e outro à cintura (literalmente embalada para presente) às convidadas e a própria Sarah,  Encrenca ficou tão nervosa que fez xixi na frente de todas as convidadas. Para completar a cena, Sarah recusou o presente, irritando profundamente a sua mãe. E assim se entrelaçou a história das duas meninas com vidas tão diferentes e desejos tão iguais.

A vida seguiu seu curso “normal”, com os escravos realizando suas atividades diárias, com Encrenca acompanhando Sarah dia e noite até se tornarem não amigas exatamente, mas cúmplices pelo desejo de libertar e ser libertada. Sarah não entendia como as pessoas podiam ser compradas e usadas como se fossem objetos, forçadas ao trabalho e pior, sofrendo violência de todo tipo quando não respeitavam seus senhores. Encrenca via tudo mais de perto ainda, sendo filha de escrava e escrava, embora sua função fosse mais leve – enquanto não aprontasse – como dama de companhia. Elas cresceram, tiveram alguns momentos juntas, outros separadas, quase se perderam uma da outra, mas o tempo inteiro lutando – cada uma à sua maneira – para serem livres de verdade, para poderem se manifestar sem serem censuradas, para poderem andar nas ruas de cabeça erguida e sem vergonha de suas atitudes ou de suas crenças. Passaram seus maus bocados, tiveram suas derrotas, algumas portas fechadas, algumas dores, saudades, mas aos poucos conseguiram deixar suas marcas no mundo!

Sarah principalmente, ganhou o mundo, deu sua cara a tapa, foi audaciosa, lutou por tudo aquilo que acreditou… Correu atrás dos seus sonhos e foi além, correu atrás do sonho de gerações inteiras de mulheres e da população negra escravizada. Sofreu com a indiferença, a rejeição, foi ameaçada, foi convidada a se retirar de sua cidade natal. Ela precisou se reinventar várias vezes, e soube se erguer a cada queda… Lições pra vida inteira!

Encrenca passou maior parte do tempo na casa da mãe de Sarah, aguentando suas intempéries e os maus tratos à ela, sua mãe e todos os escravos. Tentou fugir, tentou mudar a sua vida com as ferramentas que tinha, tentou encontrar Sarah, perdeu sua mãe! Mas ganhou uma colcha cheia de histórias…

Eu preciso me cuidar porque acabo escrevendo e relatando coisas demais, são muitos detalhes, muitos trechos cativantes, marcantes mesmo, foi um livro que me conquistou de primeira e que recomendo a leitura pra vocês, qualquer pessoa, homem ou mulher, pois é uma história linda, brilhante, que faz a gente refletir sobre coisas que parecem tão ultrapassadas mas são mais atuais do que gostaríamos que fosse.

Gente, coloquem já esse livro na lista de leituras de vocês, não irão se arrepender!!! Fica a dica. E dois trechos especias! 

” A vida é organizada contra nós, Sarah. E é brutalmente pior para Encrenca, sua mãe e sua irmã. Todos desejamos um pedaço do céu, não? Suspeito que Deus planta esses desejos em nós para ao menos tentarmos mudar o rumo das coisas. Temos de tentar, só isso.” 

“Foi uma grande revelação para mim […] que a abolição seja diferente do desejo por igualdade racial. O preconceito de cor é a base de tudo. Se não for consertado, as dificuldades dos negros continuarão muito além da abolição.”

Título: A Invenção das Asas

Escritor: Sue Monk Kidd

Classificação: Ficção Norte-Americana

Ano de Publicação: 2014

Tradução: Flávia Yacubian

Editora: Paralela

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

2 comentários

Bere · 3 de setembro de 2014 às 23:33

Tambem gostei muito deste livro….o outro que li da mesma atora tbem eh otimo:A vida secreta das abelhas……bj Bere

    Nine Copetti · 4 de setembro de 2014 às 06:36

    Acredita que ainda não li A vida secreta das Abelhas? Mas já está na lista!
    Beijos

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