Em Auschwitz, a vida humana vale menos que nada; tem tão pouco valor que já nem se fuzila ninguém, pois uma bala é mais valiosa do que um homem.” (pág.  11)

Dica de livro super atrasada, diga-se de passagem, né? Nem lembro quando foi que terminei essa leitura, só sei que faz um bom tempo… (peraí que vou pesquisar no Instagram)…

Pelas contas do Instagram, há quase dez meses atrás encerrei essa leitura. Ainda não consegui descobrir porque cargas d’água não fiz resenha dele aqui no blog na época, aliás, jurava que havia escrito!!! Bem, agora que não preciso mais me preocupar em acordar tão cedo e posso aproveitar melhor meu período produtivo (noites são perfeitas para escrever), resolvi “resolver” isso logo e publicar uma resenha – sujeita à falhas de memória – para que vocês possam ter uma ideia dele.

“Enquanto durou, o bloco 31 (no campo de extermínio de Auschwitz) abrigou quinhentas crianças e vários prisioneiros conhecidos como “conselheiros”, e, apesar da estrita vigilância a que estava submetido, contou, contrariando todos os prognósticos, com uma biblioteca infantil clandestina. Era minúscula: consistia em oito livros, entre eles Uma breve história do mundo, de H.G. Wells, um livro didático russo e outro de geometria analítica […]. Ao fim de cada dia, os livros, com outros tesouros, tais como remédios e alguns alimentos, eram confiados a uma das meninas mais velhas, cuja tarefa era escondê-los toda noite num lugar diferente.” Alberto Manguel, A biblioteca à noite

Para quem tem curiosidade, algum interesse ou estudou um pouquinho de história, só de ouvir falar em Auschwitz já deve entender que não se tratam de bonitas nem felizes histórias, muito pelo contrário, são dramas de uma época que muitos gostariam de apagar da memória, momentos de tristeza, de terror, de perdas irreparáveis, mas também de algum sopro de esperança. E é esse sopro que faz com que esse livro seja especial. Auschwitz foi um dos campos de concentração no período da Alemanha Nazista que mais horrores vivenciou e não à toa muitos escritores vem publicando livros sobre o tema mostrando um lado que se sobrepõe ao horror e que pode fazer com que em algum momento nossa fé na humanidade seja restaurada.

Em A Bibliotecária de Auschwitz existe uma história romanceada e inspirada em uma personagem real (a bibliotecária Dita Dorachova, hoje com mais de 80 anos, sobrevivente do pavilhão 31) sobre seu minucioso e perigoso trabalho – quando era uma menina ainda – de proteger livros para continuar compartilhando conhecimento com as outras crianças do pavilhão, totalmente contra as regras e contra a vontade dos alemães.

Sinopse:

Uma garota de 14 anos. Um professor. Oito livros. Esperança. Em plena Segunda Guerra Mundial, no maior e mais cruel campo de concentração do nazismo, cerca de quinhentas crianças convivem todos os dias com a morte e com o sofrimento. No pavilhão 31, de vez em quando uma janela é aberta para férias. Obra de Fred Hirsch, o professor que consegue convencer os alemães a deixa-lo entreter as crianças. Desta forma, garante ele aos nazistas, seus pais – judeus – trabalhariam bem melhor. Os alemães concordam, mas com uma condição: seria terminantemente proibido o ensino de qualquer conteúdo escolar no local.

Mal sabiam eles o que a jovem Dita guardava na barra de sua saia: livros.

Baseado na história real de Dita Dorachova, A Bibliotecária de Auschwitz é o registro de uma época triste da história, mas também o relato de pessoas corajosas que não se renderam ao terror e se mantiveram firmes na luta por uma vida melhor, munindo-se de livros.

É uma leitura realmente incrível, uma história linda – na medida em que isso seja possível, e conforme o olhar de quem lê – e comovente, que envolve a relação de amor com a literatura, com a história e como elas podem ter o poder de transformar as pessoas e fazê-las acreditar que um mundo melhor é possível mesmo em meio ao horror e ao caos. Porque enquanto você ouve ou lê uma história, seja ela qual for, você se transporta para outro mundo, se desliga do ”seu” mundo, sonha, faz viagens no tempo, aprende. Ler é libertador. Abre a mente, cria novas oportunidades, traz conhecimento através da fantasia.

Logo na primeira orelha do livro o autor, Antonio Iturbe, fala: “Alguns não acreditaram que isso fosse possível; pensaram que Hirsch era um louco ou um ingênuo: como escolarizar crianças num brutal campo de extermínio, onde tudo é proibido? E ele sorria. Hirsch sempre sorria, enigmático, como se soubesse algo que os demais desconheciam. Não importa quantos colégios os nazistas fechem, respondia. Cada vez que alguém se detiver num canto para contar algo e algumas crianças se sentarem ao redor para escutar, ali terá sido fundada uma escola.”

Na verdade esse romance é um relato da coragem de dois jovens judeus: um, Hirsch, prisioneiro a serviço dos alemães; a outra, Dita, trazida ao campo junto com seus pais. Depois de saber de uma vaga para ajudar os professores no pavilhão 31, Dita se candidata e consegue a vaga, isso faz com que a maior parte do tempo em que sua mãe faz trabalhos forçados no campo, ela assuma tarefas inicialmente auxiliando a entreter as crianças e beneficiando-se de refeições um pouco (bem pouco) melhores e de circulação mais livre entre os pavilhões e de acesso ao conhecimento (mesmo que inicialmente isso possa parecer inútil naquele ambiente tão hostil).

Logo que passa a se sentir mais confiante e confiável, Dita recebe a proposta de ser a guardiã dos livros da pequena biblioteca do pavilhão, sua função será a de distribuir, consertar e guardar, todos os dias, como se fossem – e eram – verdadeiros tesouros.  Um segredo que deve ser muito bem guardado, pois não agrada em nada aos soldados alemães. Para tanto, no quarto de Hirsch, o jovem, idealista e carismático professor judeu que coordena tudo por ali, existe um canto reservado, um esconderijo sob o assoalho, onde cabem exatamente esses oito livros já gastos, alguns sem capa, mas que podem fazer milagres pelas crianças que tiveram a sorte de estar ali. Uma escola clandestina dentro de um campo de concentração nazista. Uma ofensa aos alemães nazistas, uma utopia que virou realidade por dois anos, período em que conseguiu manter vivas 500 crianças de Auschwitz.

Dois professores levantam a cabeça, angustiados. Eles têm nas mãos algo estritamente proibido em Auschwitz e podem ser condenados à morte se forem descobertos. Esses artefatos, tão perigosos que portá-los é motivo de pena máxima, não disparam nem são objetos pungentes, cortantes ou contundentes. O que tanto temem os implacáveis guardas do Reich são apenas livros: livros velhos, desencadernados, desfolhados e quase desfeitos. Mas que são perseguidos, condenados e vetados de maneira obsessiva pelos nazistas.  […] Qualquer que fosse sua ideologia, todos tiveram algo em comum: sempre perseguiram os livros com verdadeira sanha. São muito perigosos, fazem pensar.”  (pág. 13)

Para driblar as revistas quase diárias dos soldados nazistas, Dita inventa um jeito mais seguro de guardar os livros nos momentos mais tensos ou nas revistas que são feitas de surpresa. Antes ela simplesmente escondia embaixo do vestido ou dentro do casaco, mas corria o risco de deixa-los cair quando os soldados se aproximassem ou guardava no esconderijo do quarto, mas nem sempre dava tempo. Depois de fazer amizade com uma costureira de outro pavilhão (na verdade, baseada em trocas – geralmente comida por favores ilegais), ela disse que precisava de bolsos internos bem reforçados nas suas roupas, alguns pedaços de pão (ou alguma outra comida)  pagaram o serviço.

A história é intercalada com trechos de encontros com sua mãe (seu pai faleceu algum tempo depois de chegar ao campo, já muito doente), com sua amiga-confidente Margit, que no livro é citada como irmã de Anne Frank  (isso é relatado rapidamente, como ainda não li O Diário de Anne Frank, não sei dizer se confere), os raros momentos que as duas viviam como verdadeiras adolescentes, com suas dúvidas, confissões… Um certo amor platônicomesmo na miséria e na desgraça que eram os campos. Acho que dos livros que li sobre o Holocausto esse é o que mais humanamente se aproxima dos verdadeiros personagens, que relata esse momento histórico pelo viés das vítimas que conseguiram sobreviver.

Ela olha o maltratado passarinho de papel, tão vulnerável quanto seu pai nas últimas horas. Tão frágil quanto aquele velho professor louco de óculos tortos. São todos tão frágeis…” (pág. 179)

Dita quer escapar da odiosa realidade desse campo que matou seu pai, e sabe que um livro é um alçapão que leva a um sótão secreto.  É um mundo à parte, no qual podemos nos refugiar.” (pág. 186)

 

É a rotina do campo, com os extermínios, com o trabalho escravo, com cada vez mais pessoas chegando para viverem o horror; mas também é a coragem, a esperança de sobreviver e poder lutar contra essa gigantesca onda que é a guerra. É transformar o ambiente de atrocidades em combustível para, dia após dia, dar-se conta de que ainda se está vivo e ainda há o que fazer. As perdas são inevitáveis, as dores, dilacerantes, isso está presente também, é inerente a história que se pretende contar, não há disso como escapar, mas o fato de Dita ter sobrevivido a todo esse horror e hoje ainda viver, tantos anos depois, para confirmar a própria história faz com esse seja, de longe um dos meus livros favoritos.

Para quem está inseguro, eu recomendo que não deixe de colocar na lista de livros para ler. Por mais que seja um romance, por mais triste que pareça – e é na maior parte do tempo – é uma demonstração incrível de esperança num impossível que se tornou possível. Não consigo escrever mais que isso, porque só a experiência da leitura é capaz de transmitir a essência dessa história.

É muito forte para alguns os temas que envolvem a Segunda Guerra, o nazismo, o holocausto, o terror, o horror, a miséria, a fome, o extermínio, o medo, o tabu…

Mas é também uma forma de perceber luz, esperança, fé, coragem, amor ao próximo, vontade, milagre!

Leiam. Vocês não irão se arrepender, não! É um romance brilhante que nos faz realmente acreditar que tudo que acontece nesse mundo é uma grande lição.

E para quem realmente se interessar, encontrei essa entrevista com Dita Kraus, que vive hoje em Israel, tem 84 anos, casou-se com um dos professores do pavilhão 31 – Otto Kraus – algum tempo após serem libertados pelos Britânicos. A entrevista é incrível e apesar de muitos detalhes não baterem exatamente com o livro (afinal, trata-se de um romance, né) a história é enriquecedora e muito comovente.

Um beijo grande,

Boas leituras…

 

Signature_Nine

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

2 comentários

Clauo · 8 de setembro de 2015 às 12:12

Eu adoro livros sobre guerra! Li e adorei vários, entre os quais recomendo A Chave de Sarah, A Vida em Tons de Cinza e Trem dos Órfãos.
Adorei e vou procurar este também. Vou ler a entrevista.
Adoro suas fotos :)
Assim como vc, às vezes demoro uma eternidade para postar a resenha dos livros lidos (isso quando eu posto…rs).
Bjks mil

http://www.blogdaclauo.com

    Nine Copetti · 8 de setembro de 2015 às 16:11

    Ah, muito obrigada, querida Clauo! E pelo jeito vamos trocar muitas figurinhas ainda!!! Adoro essas dicas! Livros sobre guerras ou fatos históricos são ótimos, ainda mais quando baseados em fatos reais, são enriquecedores! Olha, acho que não li nenhum desses, e a minha lista de livros só aumenta! Kkkk

    Tu já leste As memórias do Livro?

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