Nas férias eu tradicionalmente planejo ler mil livros, revistas e artigos que ficaram acumulados durante o ano. Se tenho viagem programada, na mala sempre levo dois ou três livros curtos e depois que comprei o Kindíneo (apelido carinhoso para o meu Kindle Paperwhite) ainda traço uma meta com o que já tenho baixado nele pra ler.

Agora, me perguntem se leio tudo isso de fato… Me perguntem se leio alguma coisa que seja? Faço “zilhões” de coisas, menos ler! Acabo voltando com os livros intocados na mala e uma culpa do tamanho do universo no coração.

A boa notícia é que dessa vez foi (um pouquinho) diferente. Levei um livro de contos e o Kindíneo – porque tinha a intenção verdadeira de acabar de ler O Jogo Do Anjo, do Zafón! Antes de tudo vale confessar que esse livro de contos eu comprei porque me atraíram as palavras “árvore” e “aramaico”, porque a capa era linda e outonal, porque a editora era a Zouk, que é daqui e tem uma história bacana e pessoas muito queridas por trás dela!

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Ok, bora falar logo sobre o que interessa, A árvore que falava aramaico: um livro de contos do escritor bageense José Francisco Botelho, que me surpreendeu no final das contas, para além-capa, e que feliz eu fiquei – que fez prender os olhos nas páginas o tempo todo, me permitiu viajar pra longe em vários momentos, pra cidadezinhas esquecidas, pra Macondo, pra Uruguaiana, pra Barcelona sombria e um sem-fim de lugares que me fizeram lembrar até do que nunca vi… Um misto de sentimentos que iam se transformando e mexendo comigo a cada novo personagem, bastava terminar uma linha para logo me surpreender novamente e novamente e sempre aquela sensação de contentamento ao ir terminando cada conto.

Ele navega despreocupado entre mistério, fantasia, memórias, suspense e até terror. Por vezes pude me imaginar sentada em algum velho sofá de algum velho apartamento do centro daqui de Porto Alegre, ou então na varanda de uma casinha alojada no meio do nada, onde as folhas visitam o chão junto com aquela poeira vermelha que tinge tudo e todos… Ou ainda em um cemitério, à noite, à espreita de alguma coisa que não se consegue explicar. Em um dado momento juro que me vi em lembranças daquela senhorinha, lá no inteirior do interior da pequena cidade, já noitinha, acendendo sua vela pro santo e pedindo proteção para os seus. Quando não me peguei rindo de lembrar aquele tio (que na verdade nem parente direito é) modernoso pros tempos atuais, que traz as novidades da cidade grande e todo mundo arregala os olhos de admiração pelas histórias de vida que ele carrega. Uma pontinha de inveja surge lá no fundo do peito e uma vontade de entrar naquele carro azul “último modelo” e pegar a estrada com ele, quem sabe a gente também não fica um pouco mais esperto e sabido do mundo!?

“No dia em que o mundo quase acabou, eu acordei muito cedo, tomei um café forte, vesti minha melhor roupa e passei a manhã perambulando, como tonto, entre a janela do escritório e a sacadinha da sala de estar. Era um domingo quente, as ruas de terra batida estavam desertas e Mirador parecia um vasto e branco cemitério; mas em breve, uma nuvem de poeira despontaria ali na esquina, as pombas levantariam voo no lajedo da praça e o Buick azul de meu tio surgiria no mormaço, entre acenos e buzinas.”

(No dia em que o mundo quase acabou, pg. 11)

Não sei vocês, mas eu até então não tinha lido nada desse cara, nem conhecia pra ser bem sincera. Valeu a pena me deixar levar pela capa – e nem contei a confusão que arrumei pras gurias que organizam o projeto da foto acima, de uma caixinha itinerante para as pessoas conhecerem os livros da editora (apenas para conhecerem, não para levar pra casa, entendem? Hahahaha, pois então, eu consegui comprar sem ele estar de fato à venda, mas isso eu conto em outro post, combinado?).

O fato é que bati o olho no livro, trouxe pra casa comigo e deixei ele quietinho na estante, assim como todos os outros que penam esperando por mim, por um tempinho pra lê-los com a devida dedicação. E seu conteúdo conseguiu me cativar tanto quanto pela sua capa. E me deleitei com cada uma das histórias do cara, mergulhei fundo num mundo misterioso e vasto, com tentáculos que me abraçaram e não me largaram até chegar nas últimas linhas e sentir aquela falta típica que a gente sente quando um livro muito, muito bom acaba. Sensação já conhecida nos romances, de ficar órfã, sem rumo, quase com um pedaço arrancado do coração; e feliz. Feliz por ter encontrado algo tão singelo e tão incrível, uma literatura de contos espetacular, como poucos hoje são capazes de escrever e menos ainda invocar 100% nossa atenção, praticamente uma hipnose literária. E o cara tem a minha idade! Há esperança no universo dos contos! Machado de Assis deve estar sorrindo largo agora!

“Tão pouco, tão insuficiente é parecer! Quanto aos anjos, fadas e hipogrifos, assumo que nunca os vi, ouvi, cheirei, toquei ou lambi, mas nada nos garante que não existam em algum lugar remoto da criação e, se um dia aparecerem, não vou considerá-los mais ou menos espantosos que os automóveis, as portas, as unhas, os plátanos ou minhas já acostumadas adversárias de jogo.”

(Ontologia das Vozes, pg.166)

Que venha o segundo volume de contos (passarinhos me contaram essa) e muitos outros mais  desse José Francisco Botelho, Chico Botelho, J.F.H.T.J.B ou o que for da preferência para alguém com tantas opções no próprio nome. Já considero ele um querido escritor.

Agora me contem vocês, já leram A árvore que falava aramaico? Vocês curtem livros de contos?

Que venha sexta-feira (e não esqueçam… tem Especial Gilmore Girls, uhuuuuu)!!!

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

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