»Este post foi originalmente publicado no blog do 4 Coffee Sessions (tivemos que encerrar o nosso bebê-projeto em novembro desse ano por motivos de agenda super corrida – quem sabe num outro momento a gente volta! <3)

Ele sempre chegava, sisudo, cara fechada pro mundo, aquelas rugas na testa de quem já se preocupou – e ainda se preocupa – muito na vida. Uns fios grisalhos acusavam o tempo que ele já viveu.

Pegava o jornal do dia na bancada com aquela sua displicência diária, típica de alguém já cansado de más notícias. Folheava cada página como se essas pudessem queimar suas mãos.

Pedia seu espresso. Espresso duplo, claro, porque o dia era sempre longo demais, penoso demais. Tanto trabalho a cada ano, tanto de tudo todo sempre.

– Nada para acompanhar seu café, senhor? Dizia a atendente com seu sorriso singelo.

– Só café. E esse jornal. Obrigado. Respondia o senhor, com convicção.

Retomava sua leitura mecanizada. Uma mexida delicada na crema do seu espresso duplo, dois goles e uma espiada carregada de culpa no relógio de pulso dourado.

Ah, o relógio dourado. Ele lembrava bem do último Dia dos Pais. O aroma do café recém passado que vinha da cozinha (muito parecido com o que sentia ao aproximar aquela xícara do rosto) e uma voz infantil, doce, repleta de expectativa o chamava escada acima.

Meia mesa posta, até onde ela alcançava, algumas xícaras desalinhadas, uns pingos de café sobre a toalha um pouco enrugada ali onde ela deixou o bule e uma caixinha de presente.

Olhinhos de amor brilhando para ele, que então descia as escadas, já com a pasta de trabalho em uma das mãos. Sua mãe havia prometido deixar que ela fizesse tudo sozinha, apesar de tão pequenina.

Enquanto ela balançava o corpo com as mãozinhas pra trás, em seu misto de alegria e ansiedade, já na pontinha dos pés, na beira da mesa, ele se aproximava e a olhava com olhos também de amor, largava sua pasta na cadeira ao lado dela, pegava e abria vagarosamente a caixa e o dourado que havia lá dentro não se comparava ao brilho estampado no olhar da sua pequena garotinha, já tão sabida. O presente era um detalhe perto do calor que aquecia seu coração toda vez que seus olhos encontravam os olhinhos dela encantados e admirados.

Fechou o jornal, colocou a xícara de volta sob o pires, levantou-se, abriu um grande sorriso para a moça que o atendia, meneou a cabeça e saiu.

◊◊◊◊

 

  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

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