Preciso compartilhar com vocês (aproveitando que a Karina me pediu dicas de filmes lá no Instagram) dois filmes franceses que tocaram fundo no meu coração e tenho certeza que encantarão vocês também.

Duas comédias com a dose ideal de simplicidade e delicadeza, trazendo temas pouco abordados no nosso dia a dia com uma doçura e sutileza típicos (e sim, isso pode ser clichê) dos filmes franceses. Eles têm a sabedoria de construir cenários e histórias belíssimos, conseguem nos conquistar e fazer com que entremos no ritmo deles, um ritmo pausado, reflexivo – sempre digo isso e é sempre o que acontece com os filmes que saem da França para ganharem o mundo – que nos dá tempo de repensar nossas próprias ações, nossos valores mais importantes.

Minhas tardes com Marguerittenão está mais disponível no Netflix :(

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Minhas tardes com Margueritte fala sobre a delicadeza do aprendizado, sobre a humildade em aceitar o conhecimento, sobre a beleza de receber a atenção e o carinho do outro, mesmo sendo esse outro um completo estranho.

Um cinquentão bruto, rústico, com pouquíssimo conhecimento mas de coração mole, tão mole que mal se defende dos amigos que caçoam dele pela sua “burrice”, fora o que passa desde criança com a mãe – e até hoje, que trata ele com uma indiferença dessas que machucam e marcam a alma pra sempre, até mesmo a alma de um “ogro” como Germain (interpretado pelo ator Gèrard Depardieu).

Já Margueritte é uma senhorinha pequena, frágil e ao mesmo tempo muito esperta e observadora. Uma nonagenária, cabeça branquinha feito neve, dessas vovozinhas que a gente tem vontade de abraçar devagarinho, com medo de quebrar.

Ambos tem o hábito de ir até a praça da cidade, alimentar e conversar com os pombos. Germain nomeou um a um, sim, os pombos. E todo dia os conta, chamando pelos seus nomes. Margueritte tem sempre um romance na bolsa, que ela abre aleatoriamente, sem se preocupar muito com a ordem de leitura, apenas como forma de passar seu tempo. É assim, nesse cenário comum aos dois que engatam uma pequena conversa e se tornam amigos.

Juntos eles lerão alguns romances – começando por “A Peste”, de Albert Camus, travarão diálogos doces e inspiradores e ele treinará sua leitura, sua interpretação dos romances e poesias, um desafio que achava insuperável. Mas não é apenas sobre superação que trata esse filme adorável… Acho que ele faz um resgate da simplicidade, da importância de reconhecer esforços e dar valor a quem já não acredita mais em si mesmo. É sobre pegar pela mão e mostrar que o caminho não é assim tão doloroso, que a vida pode ter a leveza de uma pluma se aceitarmos receber dela um carinho. E sobretudo, é aceitar que a amizade não tem medida e que o aprendizado é constante e todo ogro guarda dentro de si uma doçura e uma vontade de viver e crescer como ser humano e isso transcende o mundo hostil e apressado em que vivemos.

Margueritte foi ternura e poesia na vida de Germain e foi com poesia e ternura que ele agradeceu à ela tudo o que recebeu nos dias em que passaram juntos.

Um pequeno diálogo extraído do filme que mostra o quanto ela foi delineando, delicadamente, a amizade dos dois e abrindo o caminho para que ele entendesse e reconhecesse o significado e a importância da sua vida para si mesmo:

Margueritte: …Assim pensa o autor, Romain Gary que adorava sua mãe.
Germain: Por quê. Não é uma história inventada?
Margueritte: Não, é a história da vida dele.
Germain: E se tivesse sido o contrário?
Margueritte: O contrário?
Germain: Sim. E se ele não fosse amado pela mãe, o que teria acontecido?
Margueritte: Sei lá. Se uma criança não recebe amor durante a infância, precisa descobrir tudo depois, não?
Germain: Não sei nada sobre isso. Não sei.

Um filme pra ser visto muitas vezes, para ser usado vezes sem fim como remédio para as dores da alma. E para vocês terem mais um gostinho e correrem assistir, deixo a poesia que ele fez para ela (pequeno spoiler, para quem se importa, pula e vai direto assistir):

“Um encontro pouco comum.

Eu a conheci por acaso no parque.

Ela não ocupava muito espaço,

era do tamanho de uma pomba com as suas penas.

Envolta em palavras, em nomes, como o meu.

Ela me deu um livro, e outro, e as páginas se iluminaram.

Não morra agora, há tempo, espere.

Não é a hora, florzinha.

Me dê um pouco mais de você.

Me dê um pouco mais de sua vida.

Espere.

Nas histórias de amor há mais que amor.

Às vezes não há nenhum ‘eu te amo’,

mas se amam.”

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Nenette, a meia-irmã – ainda disponível no Netflix :)

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Nenette, a meia-irmã é um filme adorável também, que nos remete um pouco à inocência da infância mas no corpo de um adulto, no caso,  a própria Nenette – uma senhora com deficiência mental que acaba de perder a mãe, não conhece o pai e precisa se mudar para uma casa de repouso porque não tem ninguém que possa cuidá-la. Tudo o que ela carrega consigo além da pequena mala é uma tartaruga que ela não abandona por nada e uma foto do seu pai. Estava indo tudo bem até que ela descobre que não aceitam animais de estimação na casa nova e resolve fugir, sai a pé pela estrada com sua malinha, a tartaruga e um guarda-chuva. No meio do caminho ela se distrai ao encontrar um coelho e vai parar no meio da floresta em uma festa Rave, onde depois de umas trapalhadas e de ser quase enxotada da festa sem eira nem beira por marmanjões e pela vocalista da banda que estava tocando, ela acaba fazendo amizade com alguns deles. A confusão, claro, não pára por aí, a polícia bate no local e para despistar o uso de drogas ilicitas, a vocalista guarda um pacote de comprimidos de Ecstasy na bolsa de Nenette e diz a ela que é açúcar. A batida policial passa por ela desapercebida, claro, mesmo quando já na delegacia, nem o cão farejador é liberado para se aproximar dela, levando em conta sua demência.

Depois de toda essa confusão ( e com o “açúcar” na bolsa) ela finalmente encontra o endereço do pai. Numa farmácia, um cara durão, extremamente mal humorado a atende sem muita paciência, uma nova confusão acontece até que finalmente descobrem que ele é o filho do pai que ela procura, portanto, seu meio-irmão. Com todo o mau humor e a notícia repentina, a primeira coisa que ele pensa e faz é avisar seu advogado de uma possível herdeira reivindicando alguma herança. E tenta de todo modo levá-la para dormir em um hotel – e de jeito nenhum em sua casa. Novas confusões, mais uma festa Rave, uma banheira transbordando e gerando danos aos proprietários do tal hotel… E Nenette acaba indo dormir na casa do irmão. A cena mais hilária é justamente no café da manhã, quando Nenette resolve prepará-lo para o irmão como prova de seu afeto. Uma ou duas “pedrinhas de açúcar”, um café meio borbulhante e com gosto ruim, voilá! Tá armada a maior confusão da face da terra. Mas ele só irão descobrir isso bem, bem depois. Assistam, porque não vou estragar mais as surpresas deliciosas desse filme.

Acho que a história de Nenette é muito sobre como enxergamos a vida – a nossa e a dos outros e como nos posicionamos diante dela. A beleza das pequenas coisas (como o amor de Nenette pela Totoche, sua tartaruga e na mesma medida seu amor por todas as pessoas que a encontram), a inocência de quem cresceu só no corpo, mas no espírito continua aquela criança inocente, que acredita de verdade que todos tem tanto amor pra dar quanto ela, e nem nota quando alguém não gosta. Mas cai no choro quando é maltratada ou contrariada.

É a versão mais pura do amor e da amizade, também um pouco sobre respeitar o outro como ele é, aceitar suas limitações e diferenças, aprendendo a conviver. É amolecer o coração de alguém que já esqueceu como é amar, ensinando novamente que o mundo pode ser um lugar tranquilo e bonito se a gente deixar. Claro que no filme eles pegam um pouco pesado e deixam tudo mais surreal do que poderia ser (sobre o uso de uma droga ilícita e seu efeito prolongado demais, vamos dizer assim), mas quem liga, né… Eu me diverti, ri, chorei, ri alto, ri mais alto ainda e no final fiquei com aquela sensação deliciosa de que a vida vale a pena!

nenetteameiairma6As mágicas pedrinhas de “açúcar” e a inseparável tartaruga Totoche (gostei tanto do nome)

Acho que esses são meus dois filmes franceses mais queridos dos últimos tempos, recomendando pra vocês de coração. Assistam, assistam!!! E depois venham me dizer o que acharam! Falar sobre esses filminhos deixa a alma mais leve e feliz!  ♥

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  Ei, curte aqui, vai! :(

Nine Copetti

Dizem por aí que já nasci com um livro embaixo do braço. Ando pelas ruas com o olhar pro alto a procurar nuvens que sejam algodão doce e passarinhos que versem sobre o dourado lindo do sol que chega de mansinho. Desanuvio meus pensamentos em palavras que se tornam meus textos de escape, faça sol ou chuva. Nos dias de chuva eu capricho mais. Dizem.

4 comentários

Karina Gomes Carvalho · 15 de dezembro de 2016 às 14:44

Oi Nine, que pena que “Tardes com Margueritte” não esta mais no Netflix :( mas assisti a “Nenette a meia irmã” e simplesmente AMEI!!
Ri demais, me emocionei, filme lindo mesmo, que faz a gente acreditar mais na vida, muito obrigada pela indicação! deu vontade de assistir pela 3 vez hehe :) Beijocas

    Nine Copetti · 15 de dezembro de 2016 às 21:42

    Ai, Karina… Mas eu tenho esperança que ele volte pra grade de filmes, viu! Tomara! E que bom que tu gostou! Precisamos de filmes que façam a gente acreditar que o mundo pode ser melhor do que é!

    Um beijão! ;)

      Rosa Helena · 28 de dezembro de 2016 às 20:45

      Vou já assistir Nenette, a meia-irmã, pela descrição parece um filme bem doce e leve.

        Nine Copetti · 4 de janeiro de 2017 às 21:45

        E é mesmo! Depois me conta se tu gostou?
        E desculpe a demora em te responder, o trabalho anda me tomando tempo demais e o blog anda meio abandonadito! :(

        Beijo grande e um ótimo ano pra ti!

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