Meus Lugares | Passeio em Bento Gonçalves

Nas últimas férias (isso foi lá em maio, já estamos ansiosos pelas próximas, hahaha) resolvemos conhecer um pouco mais da Serra Gaúcha e demos um pulinho até Bento Gonçalves. Foi um passeio de final de semana, fomos no sábado e no domingo já estávamos de volta!

Pra começar a história, escolhemos uma época bastante chuvosa e que além de tudo, os parreirais não estão bonitos, as folhas já caíram… começo de inverno, né! Mas tudo bem, queríamos conhecer a região e também aproveitar as férias em um lugar próximo de Porto Alegre.

Nos hospedamos em um lugar chamado Pousada Casa Tasca, fica distante do centro de Bento Gonçalves, em umas ruas que mais parecem uma montanha russa. Escolhemos a pousada pela simpatia do atendimento ao telefone depois de uma seleção meio aleatória pelo Google. Os proprietários, um casal super querido e muito atencioso, nos receberam como quem recebe seus próprios familiares, nos sentimos em casa desde a chegada. A Casa Tasca fica em um bairro residencial, arborizado e tão tranquilo que quase não conseguimos dormir (estamos acostumados com o barulho infernal do trânsito de POA na janela do nosso quarto) e ainda fomos acordados pelos passarinhos cantando em nossa janela.

A cidade é muito acolhedora, tanto quanto o casal que nos recebeu na pousada. Em todos os restaurantes, lojas, cafés que visitamos, tivemos essa mesma impressão. São queridos, dispostos, atenciosos… Sinceramente, sentimos vontade de ficar por ali e não voltar mais pra POA. E quem nos conhece a mais tempo ou já leu algum outro post sobre nossas cidades queridas, sabe que costumamos nos apegar e sentir vontade de morar em todas elas.

Pedimos um táxi e fomos conhecer o centro, nada muito diferente de outras cidades da região, tudo muito bem cuidado, muito limpo, com calçadas e ruas amplas para caminhar – embora, talvez pelo frio, talvez pelas “lombas”, muito pouca gente se veja nas ruas – além do L’América Shopping, que é muito bonito, de médio porte, com lojinhas cheias de charme, restaurantes bacanas e com preços acessíveis. O Ruccula Restaurante foi o nosso favorito, estilo buffet BBB, com atendimento de restaurante top, ficamos surpresos e adotamos como favorito por ali.

Parece que existe um segundo shopping na cidade, mas não vimos nem buscamos mais informações.

O ponto alto do passeio era a tal da Maria Fumaça, um passeio de duas horas em um trem antigo entre as cidades de Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, com teatro, dança e degustação de vinhos, sucos e espumante (esse último, uma delícia).

Por R$ 40/pessoa (valor promocional) o ingresso incluiu a Maria Fumaça e a Epopeia Italiana, que é uma representação da trajetória dos Imigrantes Italianos desde a primeira oferta de terra e trabalho no Brasil até as primeiras cidades fundadas já quando chegaram aqui. Há encenação, vídeos e uma pequena degustação ao final da apresentação.

Sendo bem sincera, eu esperava mais do passeio de trem. Não pesquisei tão a fundo as informações antes de ir e na minha cabeça essa rota passaria pelos vinhedos, fui super empolgada imaginando um cenário lindo visto das janelas e embalado pelo balanço do trem (nem isso foi como imaginei, andei tanto de trem na minha infância que acho que criei uma expectativa alta demais). Fora isso, vale pela história, vale pelos artistas que estão ali cada um para representar um pedacinho da sua própria história ou de seus familiares. Vale pela cidade linda sim, vale pela gentileza daquele povo, pela experiência e pela bagagem de vida e pela marca que carregam com eles. Mesmo assim, voltei pra casa sonhando com o balanço marcado do embalo dos trilhos e pela vista que não vi.

No domingo, amanheceu chovendo muito e o passeio ao Vale dos Vinhedos e o Caminhos de Pedra acabou ficando para um outro momento, visitamos apenas a loja da Vinícola Aurora e trouxemos pra casa dois exemplares de vinhos e um de brut rosé, além de sucos de uva, ótimos!

Bem, post atrasadinho, mas queria contar pra vocês pelo menos um pedacinho do passeio, que acho que vale a pena, pra quem vem pro sul do Brasil, acrescentar no roteiro… Todas as cidades da serra gaúcha tem seu charme, algumas conquistam de primeira, outras nos ganham em detalhes. Em Bento, posso dizer sem pensar que foi a hospitalidade e a simpatia dos moradores que nos conquistou e é o motivo que nos fará voltar para completar o passeio.

E aí, quem já fez esse roteiro (completo ou incompleto) me conta o que achou, vai!?

Beijão, uma ótima semana e um ótimo setembro pra vocês – primavera já vem batendo na porta, oba!!!

Dica de Livro | A Invenção das Asas

Imagem: arquivo pessoal

“Se você precisa errar, erre pela audácia”. Sarah Grimké

Ah, tão bom quando a gente encontra aquele livro que prende desde a primeira página, né! Nada supera a alegria – pra quem ama uma boa leitura – de um livro bem escrito e ao mesmo tempo, leve, sobre um tema importante e marcante pra humanidade como foi o período escravista.

Um assunto delicado que ainda hoje gera desconfortos para quem visita museus temáticos ou para quem é descendente ou de alguma forma ligado a pessoas que viveram na pele essa época.

No caso de A invenção das asas, a história se passa no início do século XIX, no sul dos EUA, mais precisamente em Charleston, uma cidade com forte cultura escravista.

Esse livro é de uma delicadeza e de um encanto extraordinários, logo nas primeiras páginas já me encantei com as meninas que darão o tom dessa aventura: Sarah Grimké (a sinhazinha, filha de uma família escravocrata da alta sociedade de Charleston) e Hetty “Encrenca” Grimké (escrava da família que é “dada” de presente à Sarah – para ser sua dama de companhia, no seu aniversário de 11 anos). Mais ou menos assim a história começa e só tende a melhorar (e a situação a piorar, para as duas).

O livro relata os próximos 35 anos à esse fato, as idas e vindas da mais nova amizade, as transformações, as ironias, a hipocrisia e a batalha diária travada entre: escravizados, escravocratas e abolicionistas. De arrepiar!

Fala sobre as dificuldades, as condições, as leis escravistas da época, os muros imaginários, a luta pela liberdade dos negros e também das mulheres. Em um mundo onde brancos comandavam e negros submetiam-se a todo tipo de trabalho e humilhação, surgem duas garotas totalmente diferentes mas iguais em tantas coisas, surgem duas meninas – uma em cada ponta do iceberg – com o desejo de mudarem o mundo à sua volta, custe o que custar: inclusive se afastar da família, deixar amores para trás, brigar com gente grande, ceder aos absurdos do regime,até o fim!

Muito antes de ser uma história, esse livro é capaz de mostrar a luta das mulheres por um espaço digno, verdadeiro e ilimitado. Liberdade, poder de voz, espaço para agir como cidadã antes de qualquer classificação. Faz refletir, faz reviver momentos difíceis que levaram anos para serem modificados.

Sinopse:

Sue Monk Kidd apresenta uma obra-prima de esperança, ousadia e busca pela liberdade. 
Inspirado pela figura histórica de Sarah Grimke, o romance começa no 11º aniversário da menina, quando é presenteada com uma escrava: Hetty “Encrenca” Grimke, que tem apenas dez anos. Acompanhamos a jornada das duas ao longo dos 35 anos seguintes. Ambas desejam uma vida própria e juntas questionam as regras da sociedade em que vivem.

Essa sinopse da Companhia das Letras resume bem a ideia central do livro: questionar as regras da sociedade e tentar mudá-las, custe o que custar. Sarah é naturalmente questionadora e seu pai estimula suas ideias e apoia suas discussões com os irmãos mais velhos enquanto isso lhe parece uma brincadeira boba, mas quando ela percebe que os escravos são maltratados e se vê obrigada a aceitar como presente a filha de uma das escravas da sua mãe, as coisas começam a mudar em sua cabeça e o tom de seu pai também começa a mudar, inclusive o discurso  apoiador. O que antes era interessante e até colaborava para o crescimento de Sarah agora é empecilho, ela é impedida de ter aulas que não sejam as destinadas à “mulheres”, é convidada a se retirar da sala quando seus irmãos entram em discussões políticas, inclusive sobre a situação do escravismo no país.

Encrenca é uma menina encantadora, terrível, arteira, vive aprontando das suas. Quando foi apresentada com um laço de fita cor lavanda preso ao pescoço e outro à cintura (literalmente embalada para presente) às convidadas e a própria Sarah,  Encrenca ficou tão nervosa que fez xixi na frente de todas as convidadas. Para completar a cena, Sarah recusou o presente, irritando profundamente a sua mãe. E assim se entrelaçou a história das duas meninas com vidas tão diferentes e desejos tão iguais.

A vida seguiu seu curso “normal”, com os escravos realizando suas atividades diárias, com Encrenca acompanhando Sarah dia e noite até se tornarem não amigas exatamente, mas cúmplices pelo desejo de libertar e ser libertada. Sarah não entendia como as pessoas podiam ser compradas e usadas como se fossem objetos, forçadas ao trabalho e pior, sofrendo violência de todo tipo quando não respeitavam seus senhores. Encrenca via tudo mais de perto ainda, sendo filha de escrava e escrava, embora sua função fosse mais leve – enquanto não aprontasse – como dama de companhia. Elas cresceram, tiveram alguns momentos juntas, outros separadas, quase se perderam uma da outra, mas o tempo inteiro lutando – cada uma à sua maneira – para serem livres de verdade, para poderem se manifestar sem serem censuradas, para poderem andar nas ruas de cabeça erguida e sem vergonha de suas atitudes ou de suas crenças. Passaram seus maus bocados, tiveram suas derrotas, algumas portas fechadas, algumas dores, saudades, mas aos poucos conseguiram deixar suas marcas no mundo!

Sarah principalmente, ganhou o mundo, deu sua cara a tapa, foi audaciosa, lutou por tudo aquilo que acreditou… Correu atrás dos seus sonhos e foi além, correu atrás do sonho de gerações inteiras de mulheres e da população negra escravizada. Sofreu com a indiferença, a rejeição, foi ameaçada, foi convidada a se retirar de sua cidade natal. Ela precisou se reinventar várias vezes, e soube se erguer a cada queda… Lições pra vida inteira!

Encrenca passou maior parte do tempo na casa da mãe de Sarah, aguentando suas intempéries e os maus tratos à ela, sua mãe e todos os escravos. Tentou fugir, tentou mudar a sua vida com as ferramentas que tinha, tentou encontrar Sarah, perdeu sua mãe! Mas ganhou uma colcha cheia de histórias…

Eu preciso me cuidar porque acabo escrevendo e relatando coisas demais, são muitos detalhes, muitos trechos cativantes, marcantes mesmo, foi um livro que me conquistou de primeira e que recomendo a leitura pra vocês, qualquer pessoa, homem ou mulher, pois é uma história linda, brilhante, que faz a gente refletir sobre coisas que parecem tão ultrapassadas mas são mais atuais do que gostaríamos que fosse.

Gente, coloquem já esse livro na lista de leituras de vocês, não irão se arrepender!!! Fica a dica. E dois trechos especias! 

” A vida é organizada contra nós, Sarah. E é brutalmente pior para Encrenca, sua mãe e sua irmã. Todos desejamos um pedaço do céu, não? Suspeito que Deus planta esses desejos em nós para ao menos tentarmos mudar o rumo das coisas. Temos de tentar, só isso.” 

“Foi uma grande revelação para mim [...] que a abolição seja diferente do desejo por igualdade racial. O preconceito de cor é a base de tudo. Se não for consertado, as dificuldades dos negros continuarão muito além da abolição.”

Título: A Invenção das Asas

Escritor: Sue Monk Kidd

Classificação: Ficção Norte-Americana

Ano de Publicação: 2014

Tradução: Flávia Yacubian

Editora: Paralela

Festival Internacional de Folclore | Nova Petrópolis RS

Imagem: Divulgação

No final de semana que passou resolvemos dar uma voltinha na Serra Gaúcha, mais precisamente em Nova Petrópolis, cidade querida nossa. O que  encontramos ao chegar na cidade foi um movimento intenso de turistas, uma praça toda enfeitada e preparada para um evento chamado Festival Internacional de Folclore – que segundo informações dos organizadores, acontece anualmente naquele mesmo espaço – que reúne diversas culturas dos mais variados países com manifestação artística através da dança típica desses lugares.

Imagens: arquivo pessoal

O evento já acontece há mais de 40 anos (como eu não fiquei sabendo disso antes?) e desde 2010 acontece na Praça das Flores – oficialmente Praça da República, na Rua Coberta (sim, Nova Petrópolis, assim como Gramado, também tem sua “rua coberta”) e em alguns outros lugares da cidade também, mas a maior parte das apresentações se concentra ali mesmo. O palco recebe as mais diversas etnias ou representações de etnias, grupos de dança folclórica daqui do sul mesmo e de diversos países!

“O Festival Internacional de Folclore é um evento de valorização das tradições e dos costumes legados pelos antepassados, numa mescla das mais distintas manifestações culturais. É um intercâmbio artístico-cultural entre os inúmeros grupos participantes, iniciado em 1973, por um grupo de amigos. O evento ocorria no mês de julho, estritamente voltado para apresentações de danças folclóricas alemãs, incentivando a participação de grupos locais e visitantes. Com o passar do tempo, tomou grandes proporções.” (via site oficial do evento)

Ficamos encantados com a organização do evento e principalmente com as apresentações que tivemos oportunidade de assistir. Imaginem, 16 dias de festival, milhares de pessoas envolvidas, globalização, diversidade e integração de povos em uma cidade de imigrantes alemães com população próxima à 20 mil habitantes, é uma loucura a movimentação de turistas e artistas pela praça, pela cidade, pelos restaurantes.

Conseguimos assistir um grupo da Martinica, o  Compagnie de Danse Pom‘kanel de Martinique, lembra um pouco o Olodum, muita batida, cores e alegria.  Esse grupo estava hospedado no mesmo hotel em que ficamos, nosso café da manhã era regado à “bonjours” ! Ô idioma gostoso de ouvir, né!?

Depois, um dos que mais gostei: Grupo Xaxado Cabras de Lampião, de Pernambuco. Eita cabras bons da peste, viu! Tinham uma energia contagiante, uma presença de palco, uma sintonia incrível e ainda nos contaram toda a lenda de Lampião e Maria Bonita, amei!!! Adoro essas coisas, adoro aprender sobre a cultura diversa e o folclore do nosso país.

Ah, um grupo que me encantou e acho que a todos que assistiam: Kuo-shin Chuang‘s, de Taiwan. Gente, as meninas apresentaram algumas danças típicas que hipnotizavam a gente, tudo tão sincronizado, tão perfeito. E elas tão humildes e simpáticas, convidando o público a subir ao palco, até choraram no final… Também pudera, praticamente atravessaram o Atlântico para estarem ali apresentando um pedacinho da cultura da República da China!

Imagens: arquivo pessoal no Instagram

Entre tantos outros que se apresentaram (chilenos, russos, árabes, argentinos, brasileiros de diversas regiões – do sul ao norte, mexicanos, americanos… e por aí vai), o Volkstanzgruppe Freundschaftkreis (é, tive que usar o Ctrl+C e Ctrl+V), um grupo infantil de danças folclóricas alemãs, atraiu a atenção do pessoal, super empenhados em fazer a coreografia como a professora orientava, em trajes típicos, risonhos e serelepes, um amor mesmo. Eles nos mostraram as danças de roda alemãs e as músicas se parecem muito com aquelas que ouvimos nos shoppings e lojas em época de Natal, tão lindinhas, meio naquele clima europeu, além de inspiradoras!!!

E pra fechar com chave de ouro (não o evento, mas sim a nossa seleção pessoal) o Grupo Kadima de Dança Folclorica Israelita, daqui de Porto Alegre, representando o folclore israelita, fez uma apresentação reflexiva sobre os conflitos históricos entre Israel e Palestina, com uma dança que mostrava os dois povos tentando se unir e ao mesmo tempo afastando-se por uma cerca simbólica, enquanto as cenas de dança ocorriam, num telão eles iam explicando toda a origem do povo judaico e os desdobramentos dos conflitos entre as duas nações. Sem dúvida foi a apresentação mais marcante, mais forte, que mais fez com que refletíssemos sobre a história da humanidade e sobre o futuro das nações! Brilhante apresentação.

Infelizmente (ou nem tanto) não consegui registar tudo em boas fotos, uma porque eu queria era assistir, né… Outra, porque ficamos muito longe do palco e quando eu conseguia um bom momento, algum cabeção passava na frente ou levantava para também fotografar ou filmar! Mas no link do site oficial – coloquei no finalzinho do post – dá pra ver as fotos lindas que o fotógrafo profissional Mauro Stoffel fez especialmente pro evento! Lá tem muita, muita, muita fotografia de todos os grupos e momentos, vale a pena mesmo dar uma olhadinha e entender melhor essa diversidade.

Enfim, foi um final de semana e tanto… friozinho, nublado, lugares lotados, mas nada disso nos desanimou! Caminhamos muito, assistimos quase todas as apresentações, comemos muitas delicias nas barraquinhas da praça, tomamos muito café!

O Hotel Petrópolis nos surpreendeu, muito aconchegante, com funcionários atenciosos, áreas amplas, quarto espaçoso, quentinho, com uma cama enorme e macia,uma sacadinha linda pra terminar a tarde tomando um chimas e relaxando! Fiquei viciada nas balinhas de funcho que ficavam disponíveis aos hóspedes na entrada, além de chá e café! Taí um lugar que com certeza voltaremos de tão boa experiência que tivemos.

Imagens: arquivo pessoal

Sobre a cidade já falei aqui e em alguns outros posts aleatórios, é nosso xodó na Serra Gaúcha, pra quando a gente quer um passeio mais leve, sem o glamour, o agito e os preços exorbitantes da dupla Gramado-Canela. Pra aquele momento de caminhar sem pressa, ficar observando os pássaros voando de um lado a outro, as flores lindas da praça e dos canteiros centrais, as casinhas com arquitetura típica alemã, as pessoas queridas, hospitaleiras e que fazem as iguarias mais gostosas do mundo (apfelstrudel, te dedico), enfim… o nosso refúgio!

Imagens: arquivo pessoal

Até mesmo em dia de festival, quando as ruas são invadidas por um sem fim de carros e ônibus de turismo!

Uma dica: se tiverem oportunidade, reservem um dia pra conhecer Nova Petrópolis, não irão se arrepender! ;)

Segue o link para mais detalhes e uma galeria imensa de fotos: Festival Internacional de Folclore de Nova Petrópolis

Uma ótima semana pra vocês!

Beijos,

Dica de Livro | O Idiota

” E todavia a dor principal,  a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de uma hora, depois dentro de dez minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, neste instante – a alma irá voar do corpo, que você não vai mais ser uma pessoa, e que isso já é certeza; e o principal é essa certeza.”

(Trecho de O Idiota, Fiódor Dostoiévski)

E depois de tanto tempo eu consegui concluir minha mais complexa/complicada/difícil/tensa leitura de todos os tempos: O Idiota, de Dostoiévski. Pois é, alguns anos de leitura abandonada, um resgate, uma bela dose de insistência e perseverança e cá estamos: livro lido, vencido!

Bem, já tem uns bons meses que terminei de ler, mas quem me segue sabe que andei deixando o blog mais abandonado do que gostaria!!

Pra começar a história, vou deixando claro que nunca havia lido nenhum clássico russo, não que me lembre. Foi uma leitura bastante lenta, minuciosa e que exigiu muito mais atenção ao contexto da tradução. Uma leitura sofrível que requer muito de quem se dispõe a ler sem conhecer a essência do escritor e sem contar a dependência do entendimento do tradutor, de como ele vai conseguir manter o enredo o mais fiel possível a obra original. Ainda precisei consultar as notas de rodapé que também tiravam minha atenção o tempo todo (eu li por aí que esse tradutor é um dos especialistas em livros russos) e, vamos combinar, com nomes de personagens e lugares impronunciáveis, tanto que acabam desviando ainda mais a atenção. Assim, devagar e pacientemente fui – e exaustivamente também – vencendo as quase 700 páginas dessa obra. Ufa!

Abro um parênteses aqui pra dizer que fiquei com muita vontade de mergulhar em um curso de literatura russa, porque não consigo conviver com essa sensação de incompletude que me consome, hahaha! Agora vou precisar muito pesquisar tudo sobre as obras de Dostoiévski e dos seus colegas escritores, além do estilo, da época e das histórias que levaram esses caras a escreverem coisas tão surreais. Ou nem tanto.

Continuando, vocês já puderam perceber que O Idiota é um livro denso, demorado, detalhadíssimo, com diálogos longos e complexos e muitos trechos dedicados a reflexão.  Na concepção de Dostoiévski idiota é aquele que parece bobo, frágil, dependente, mas que no fundo tem uma alma doce e uma inteligência apurada, qualidades que nem sempre são valorizadas ou reconhecidas devido a primeira impressão que esse tipo de pessoa carrega.

Um pouco do que trata o romance (via InfoEscola);

O Idiota é uma das obras-primas do autor russo Fiódor Dostoiévski, considerado o criador do movimento existencialista. Ele gerou este livro na cidade de Florença, entre 1867 e 1868, ao longo de quatro meses. Na gestação deste romance o escritor foi profundamente influenciado pela clássica novela de Cervantes, Dom Quixote. Há várias semelhanças entre o herói espanhol e o príncipe russo Míchkin.

Publicado em 1869, este volume perturbador foi, na época, sucesso de crítica. Nele Dostoiévski narra a história de um príncipe herdeiro que, por alguns anos, permanece na Suíça para se recuperar de uma enfermidade conhecida como idiotia. Ao se considerar curado ele retorna à Rússia.

Nesta mesma ocasião ele conhece a inconstante e imprevisível Aglaia, uma das filhas do casal Epantchiná, com quem ele tem remoto parentesco, e passa a nutrir pela jovem uma profunda afeição. O príncipe, que também é epilético, é a encarnação da bondade, da sinceridade, da fantasia e da inocência, qualidades que muitas vezes são confundidas com patetice e estupidez.

Na verdade,  Míchkin é mais perceptivo, sagaz e inteligente que muitos daqueles que o injuriam e perseguem. Ele tem o poder de vislumbrar o interior das pessoas, de conhecer a essência dos que o cercam. Assim, o príncipe conhece muito bem cada ser a sua volta, embora ninguém sequer desconfie disso.  (pra quem quiser ler mais, tem aqui a continuação).

Eu fiquei bastante orgulhosa quando consegui concluir essa leitura, mas confesso que ainda sinto que não foi uma experiência completa.

Míchkin, o príncipe que sofre de idiotia e epilepsia, que tem um coração  puro, uma inocência e uma humildade francos passa boa parte da história tentando estabelecer laços com as pessoas que encontra, pensa que todos podem ser seus amigos sem desejar nada em troca, que todas as pessoas são boas, enfim, tudo o que acontece na vida real quando tentamos ser bons e encontrar pessoas boas… As más irão aparecer e tentar distorcer as coisas ou então atrapalhar a vida de quem vê tudo de uma forma mais poética e teatral.

As cenas e os diálogos passam lentamente, dão voltas e voltas, confundem, fazem com que a gente precise parar e pensar um pouquinho na semelhança com a vida real, com o mundo real. Assim também acontece quando (pra quem já leu ou ouviu bastante sobre Dom Quixote) as semelhanças pulam das páginas do livro e tomam forma pra muito além de uma simples história…

Uma novela da vida real com mais profundidade é o que penso sobre essa história, personagens bons e maus, interessados e interesseiros, vidas que se cruzam e se separam. Sabem aquela velha história do cenário imaginário que cada um cria a seu jeito, pois então, a riqueza de detalhes, de fatos, de  personagens é tão grande que não tem como explicar como eu “vi” cada cena lida, como imaginei as ruas geladas de São Petersburgo, as casas por onde passou o príncipe, as amizades e inimizades que ele fez (não intencionalmente), os amores que teve, as viagens e as histórias contadas tantas e tantas vezes.

Uma das poucas coisas que consegui perceber nessa obra tão especial (porque difícil está longe de ser ruim, né) são os relances ou “insights” de obras de outros escritores, de passagens conhecidas de poetas, filósofos e até da bíblia. É possível reconhecer tanto o Cristo quanto Dom Quixote em Príncipe Míchkin e os outros personagens também tem ligações bem curiosas e interessantes com as obras que influenciaram Dostoiévski.

Outro detalhe interessante é que apesar de parecer uma novela gigantesca, a história não tem início, meio e fim, mas é um fim em alguns pontos, focada em comportamento, em crises existenciais, em reflexões profundas do ser humano e segundo alguns estudiosos dostoievskianos, em suas próprias dúvidas e crises.

O lado ruim de escrever sobre um livro tanto tempo depois de ter lido é que a chance de que alguns detalhes escapem é muito grande, mesmo assim quis falar pelo menos um pouquinho dele pra vocês. Se alguém mais leu e tem outras impressões divide por aqui… Essa é a melhor parte de ler… As conclusões de cada juntas e misturadas.

Pronto, primeira parte da missão: cumprida!

Título: O Idiota

Escritor: Fiódor Dostoiévski

Classificação: Ficção Russa

Ano de Publicação: 2002

Tradução: Paulo Bezerra

Editora: 34

P.S.1: Já aceitei que vou precisar ler mais algumas vezes essa obra.

P.S.2: Puxa, como são caros esses cursos de literatura russa aqui em POA, OMG, sem condições no momento!  :(

P.S.3: Já comecei a escrever sobre o segundo livro, uhuu! ;)

Beijos,

Últimas leituras | O que andei lendo nos últimos meses

Ou: – Uma prévia dos próximos posts sobre livros!

Se tem uma coisa da qual eu não abro mão mesmo em meio a correria danada do dia a dia é minha uma hora diária de leitura matinal. Acordar cedinho, chegar uma hora antes no trabalho, ir pra minha mesa – já cativa – na cantina do HCPA e tomar meu café da manhã enquanto leio algumas páginas do livro do momento, definitivamente, não tem preço!!!

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, eu chego escolho o cantinho mais discreto e silencioso, peço meu Cortado Uruguaio com Torrada e mando ver nas histórias! Os funcionários já sabem de cor e salteado minhas preferências, os colegas e até os médicos que trabalham comigo já conhecem minha “rotina matinal” e tentam não interromper meu momento de leitura, chega a ser engraçado!

Mesmo confessando que odeio acordar cedo, que só acordo de verdade depois das 10 horas e que dormir pra mim é fácil, fácil, não dependo de hora nem lugar, ainda assim considero um presente essa horinha matinal, e vou trabalhar com a cabeça recheada de novas histórias – às vezes, torcendo para que o turno acabe logo ou que o horário do almoço chegue logo pra continuar de onde parei!

A foto acima resume os próximos posts que estou escrevendo sobre livros, não exatamente naquela ordem ali! Amanhã cedinho entra Dostoiévski pra vocês, tá!? Fiquem ligados! ;)

Dos últimos livros que li, dois eu abandonei… Três, na verdade. Seguem os motivos abaixo, para quem se interessar, embora sejam decisões e gostos muito pessoais, vocês sabem…

O primeiro foi Metade de Mim, da Carla Leidens (escritora gaúcha), um livro de crônicas ótimo, quase uma conversa entre amigas!

“Por que eu não tenho a doçura do papel e das palavras grudadas nas minhas cordas vocais?” Carla Leidens

Só abandonei esse livro porque estava com uma necessidade enorme de ler outra coisa no momento que não fossem crônicas, está aguardando meu “momento certo” na estante. Sabem quando a gente tem uma inquietação por dentro, uma ansiedade por escolher um bom romance pra ler e não sossegamos enquanto não encontramos o tal? Assim estava me sentindo… Não era o momento das crônicas.

O segundo abandonado foi Paula, da Isabel Allende. Esse simplesmente não me cativou, forçadamente empurrei as páginas, uma a uma, até que finalmente vi que aquela história não era pra mim. Não curti, não senti vontade nenhuma de seguir adiante. Inclusive havia prometido a mim mesma que jamais devolveria um livro à prateleira sem ter lido até o fim… Bem, volto atrás no que disse, não forço mais, leitura é, acima de tudo, prazer em ler! Ponto. E à título de curiosidade, muita gente amou, então, só experimentando as primeiras páginas pra saber, né!?

O terceiro não foi bem um abandono, sabem… Foi uma espiadinha básica e uma constatação: não era um romance e sim um livro de pequenas frases de estímulo à vida. Pequenos poemas em forma de prosas que vão nos guiando e recolocando a vida onde ela deve estar… É como o tempero, o “sal” da vida. Esse deve ficar na cabeceira, pra ser lido em doses homeopáticas e pra todo sempre. Recomendo. O sal da vida, da antropóloga francesa Françoise Héritier é um nectar a ser provado lentamente, ao sabor da nossa própria vida! Acho que é assim que esse livro melhor se define.

 

“Existe uma forma de leveza e de graça no simples fato de existir, que vai além das ocupações, além dos sentimentos poderosos e dos engajamentos políticos. É sobre isso que este livro fala. Sobre esse pequeno plus que nos é dado a todos: “O Sal da Vida”.” 

 

É isso…

Espero conseguir escrever com uma certa frequência agora que os compromissos acadêmicos se encerraram e que a vontade de escrever voltou a dar o ar de sua graça por aqui!

Uma ótima semana pra vocês,