Meus Lugares | São Paulo – Cartão Postal

Apenas alguns dias e tantas coisas boas aconteceram que ainda estou em transe, suspirando, sonhando acordada. E nem estou falando de Paris ou algo parecido, não. Meu destino foi a cidade de São Paulo e também a minha estreia por lá, já que sou bem menos viajada do que gostaria.

A missão era começar a movimentar a minha nova condição profissional, embora ainda mantenha a anterior, claro. O turismo agora é minha sina, minha paixão e o que me moverá daqui em diante.

Preparem-se. Ou melhor, “senta que lá vem história”…

(Ps: Ah como eu queria ter ido à exposição do Castelo Rá-Tim-Bum – ingressos esgotadíssimos!!!)

A primeira atividade na cidade foi um passeio organizado pelo Congresso do qual estava participando. Esse passeio, denominado Cartão Postal, percorre os principais atrativos históricos do centro de São Paulo através do olhar do historiador Cadu de Castro, que nos mostrou cada pedacinho mágico desse canto de São Paulo e nos contou toda história do surgimento da cidade, dos cafeicultores, das quitandeiras, dos escravos das fazendas de café, da desocupação do centro – à exemplo do que ocorreu no Pelourinho, em Salvador – especificamente, na Travessa da Quitanda, onde foram removidos quaisquer sinais da presença das quitandeiras, uma conhecida forma de “higienização urbana” ou de remover para a periferia as figuras que desagradam as autoridades. Parece surreal que isso aconteça nos dias de hoje, mas acontece bem mais do que imaginamos, sem contar que muitas vezes nem tomamos conhecimento ou simplesmente ignoramos o fato de que ali também há um pedaço de história, de memórias, de cultura a ser preservada. Eu, que definitivamente sou apaixonada pela história do Brasil e ainda tenho muito que aprender, fiquei hipnotizada durante nossa caminhada pelas ruas, ruelas, travessas e becos desse centro tão rico e tão controverso.

Catedral Metropolitana de São Paulo – Catedral da Sé

Lugares como a Catedral Metropolitana de São Paulo (ou Catedral da Sé, já que fica em frente a Praça da Sé), me encantam, me fascinam demais. Cada detalhe arquitetônico conta um pouquinho mais da história da cidade. A Catedral é uma das cinco maiores igrejas em estilo neogótico no mundo, embora misture traços renascentistas e traga detalhes em homenagem à fauna e flora Brasileiras. Eu não consegui fazer um registro fotográfico que fizesse jus a sua beleza arquitetônica, vê-la de pertinho não tem preço (por dentro e por fora). Projetada pelo arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl em 1913, inspirada nas catedrais medievais da Europa, foi inaugurada só em 1954 e sua obra finalizada ainda alguns anos depois, em 1967.

Catedral da Sé

Praça da Sé

“Foi o café, sobretudo na década de setenta, que tirou a pacata cidade de seu sono colonial, transformando o vilarejo em centro do comércio cafeeiro; uma “metrópole do café”.” Lilia Schwarcz

O que achei mais interessante é a história do Triângulo Histórico, que foi essencialmente por onde caminhamos nesse passeio. Três pontos de partida que resumem bem o desenvolvimento do centro da cidade desde sua fundação pelos jesuítas e sua posterior expansão para os planaltos e periferias. Esses são os três vértices que o compõem: Franciscanos, Beneditinos e Carmelitas, cada um construiu seu convento nas bordas da colina, e ao centro do triângulo foi se desenvolvendo o comércio, os serviços, os bancos e tudo mais que hoje encontramos ao visitá-lo (neste link tem as informações melhor explicadas).

Andamos pela área do Páteo do Collegio, pelo Solar da Marquesa de Santos, que segundo o historiador Cadu nos contou, foi uma mulher bem à frente de seu tempo, amante do Imperador do Brasil, mãe de 14 filhos, que após o divórcio – por motivos óbvios – teve o Solar como seu lar e a partir daí a  Marquesa passou a ter uma presença marcante no contexto político paulista da época. E para quem estiver ou for de São Paulo, há no Solar uma exposição que retrata toda sua vida e nos permite fazer nossa própria construção da sua personagem (eu não tive tempo de conferir).

Na mesma rua há a Casa Número Um (assim denominada por ser a primeira que se tem registro de ser construida nesta rua), originalmente feita de taipa de pilão, material de construção rudimentar utilizado na época (hoje ainda se usa, aliada a novas tecnologias para aumentar a resistência das construções).

Solar da Marquesa de Santos

Casa Número Um

No Páteo do Collegio mais encantamento, um pátio imenso – que me faz pensar como sobrevive ao crescimento desenfreado de uma cidade do porte de São Paulo – cercado pela casa do Padre Anchieta, local onde fica a sua cripta, pelo Museu que leva seu nome e pelo Memorial da Companhia de Jesus, além da Igreja (onde foi rezada a primeira missa de São Paulo). Essas contruções também serviram ao governo de São paulo quando da expulsão dos jesuítas da cidade, em meados de 1700, e por esse motivo muito da construção original se perdeu. Ali no pátio também fica o Monumento “Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo”, um pedestal altíssimo de granito representando o berço da cidade, onde tudo começou. E pensar que esse local tem mais de 400 anos. Incrível!

Infelizmente consegui pouquíssimas fotos desse lugar, pois estava  vidrada nas informações passadas pelo nosso historiador, mas para quem tiver curiosidade (e vale muito a pena), vai no Google e busca por “imagens aéreas páteo do collegio” e vocês entenderão do que estou falando.

Memorial da Companhia de Jesus – Páteo do Collegio

São Paulo na alturas

É por esta parte do passeio que inevitavelmente comecei a cantarolar aquela musica que todo mundo já ouviu alguma vez na vida: “Alguma coisa acontece no meu coração / Que quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João…”, gente, não tem como não ser assim, emociona de verdade, ver aquelas praças bem no coração de São Paulo, ver o dinamismo da cidade, o vai e vem das pessoas, apressadas, conectadas tecnologicamente e tão ligadas em outros mundos que nem sentem mais a cidade como nós, que ali estamos apenas para turistar, para sentir e se deixar envolver pelo clima dos anos passados e pelas histórias que nos estão sendo contadas… Então, me deparar com a placa da Avenida São João foi demais para o meu coração de apaixonada por história e pelas histórias do Brasil.

É claro que há muito mais, mas vocês já viram o tamanho que está ficando isso aqui, né…. Bem, depois de um tempo, de um almoço no Jockey Club, fomos para o Parque Ibirapuera. Lugar lindo, de contraste total com a selva de pedras que é o resto da cidade. Pena que tivemos tão pouco tempo para curtir o parque, algumas fotos, algumas explicações sobre exposições, esculturas ao ar livre, sobre a Bienal, o MAM…

Oca do Ibirapuera

Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM

E de repente, lá perto da Roda Gigante (que aliás, está rosa pela campanha do Outubro Rosa) fomos presenteados com uma linda surpresa: Realejo Poético. Assim, simplesmente, um boneco, três artistas cheios de sensibilidade poética, alguns bilhetinhos recheados de poesia e uma turma pra lá de faceira esperando seu momento para declamar uma poesia escolhida com tanto carinho e atenção pelo boneco.

E assim encerramos nosso passeio guiado pelas ruas de São Paulo, com um final de tarde poético e cheio de risos e muitas novas amizades.

Ah, eu tirei poesia duas vezes – porque não sou fraca de querer declamar uma só, né… Millor Fernandes e Mário Quintana! Êeeeee!!!

Mas o melhor de tudo é que esse passeio foi só o começo das boas novidades. Os outros três dias conseguiram me surpreender ainda mais, aguardem… E prometo posts mais curtos daqui em diante, ok!

Ah [2], só pra avisar as minhas amigas paulistas: continuo suspirando de saudades! ;)

Outra notícia, essa pra todos: Ativei minha conta no Flickr! E estou fazendo alguns cursos de fotografia – um pouco de autodidatismo também – e aos poucos estou passando as fotos que fiz até agora com a Nikon D3100 (são poucas, mas é legal para comparar no futuro, né, porque essas estão “uó” kkk)

Espero vocês lá, dêem palpites, ok? Furados ou não, todos valem!

Uma ótima semana, se alguém conseguiu ler até aqui!!!

Beijos,

Dica de Livro | Por quem os sinos dobram

Imagem: Arquivo Pessoal

Mais um clássico da literatura (nesse caso, da literatura norte americana) vencido. Hemingway já havia me conquistado com o romance “O Velho e o Mar” e com “Paris é uma festa” e com sua presença em outros romances, filmes e no romance biográfico Casados com Paris. Todos dão o tom da personalidade dele e este último acrescenta ainda uma visão feminina das coisas, já que está diretamente ligado ou à alguma de suas esposas ou a Gertrude Stein, sua amiga e confidente, que era também escritora.

Demorei um bocado para fechar esse post, mas finalmente resolvi ser bem sucinta, assim como esse polêmico escritor.

Hemingway, antes de ser correspondente em importantes jornais e escritor, foi à guerra combatendo nos exércitos francês e italiano, na Primeira Guerra Mundial. Ele tinha apenas 19 anos. As impressões em seus romances são dessa época, a crueldade, a frieza, a dureza da guerra, as mortes.

O livro Por quem os sinos dobram fala de um cara – Robert Jordan – que é designado para uma missão nas montanhas, antes do ataque organizado por sua tropa. É dele a missão de detonar uma ponte, custe o que custar, custe quem custar. Só que em meio ao planejamento para que tudo saia bem na tal ponte, ele conhece camaradas republicanos que não se converteram ao exercito, preferiram ficar anônimos, se defendendo como podem, migrando de um lado à outro das montanhas, de modo a se manterem o mais seguros possível.

Além dessas pessoas, do plano traçado e da preocupação de ter que envolver gente que ele nem conhece na sua missão, ainda há uma moça… Maria.

Maria sofreu a parte mais dura da guerra, perdeu os pais e ainda foi friamente violentada por fascistas, traz marcas no corpo e no espírito, apesar disso, os dois se identificam e resolvem aproveitar seus poucos dias como se fossem uma vida inteira. E essa é a parte mais sensível na história toda, mais romântica em meio à tanto sangue, tantas batalhas dessas que a gente não quer entender nem fazer parte e que até hoje ainda assombra quem vive em áreas de conflito.

Bem, o romance todo gira em torno da organização para o grande dia (o de explodir a tal ponte para que o exercito fascista não possa avançar), e como um bom narrador de suas próprias dores, Hemingway passa mais da metade do romance detalhando passagens da guerra, dos encontros, das dificuldades, do racionamento, da falta de perspectiva e de esperança. De uma vida praticamente sem sentido, ao menos até conhecer Maria e passar a vislumbrar outros pontos de vista e alguma pontinha de esperança.

Pra não acabar contando toda a história pra vocês, resumo assim: é um romance duro, daqueles que se engole em seco e quase sem tempo pra digestão. Um romance que se diferencia muito desses “best sellers” que vendem como água, justamente por relatar algumas verdades da guerra entremeadas com a presença arrebatadora do amor inocente e por não se preocupar em nenhum momento com um final feliz, daqueles super bem pagos pelas grandes editoras.

Acho que é isso. Levei anos pra decidir lê-lo e demorei mais de mês para conclui-lo. Se recomendo? Claro, sempre. A gente precisa ter essa experiencia, fazer o reconhecimento de velhos escritores com os que vem despontando, seja para agregar ou para decidir o que cabe ou não nas nossas prateleiras.

E que venham as próximas leituras…

Beijos,

Exposição Moacyr Scliar | O Centauro do Bom Fim

santandercultural_fachada

Pessoal, mais uma dica de exposição muito bacana acontecendo aqui em Porto Alegre, no Santander Cultural: Moacyr Scliar – O Centauro do Bom Fim.

De tempos em tempos, em todo mundo, por razões muito difíceis de explicitar, surge um ser humano com a capacidade de falar com toda a sua espécie através da literatura. Ele pode viver numa pequena vila ou numa grande cidade. Ele pode ter uma formação acadêmica completa ou ser um autodidata. Sua pele pode ser preta, branca, amarela, ou combinar essas cores de modo pouco usual. Ele pode surgir de uma cultura específica, fazendo de sua região o seu cenário recorrente, ou pode ser um cidadão do mundo, cosmopolita e transnacional. Nada

disso importa. O que importa é essa rara comunicação estabelecida entre um indivíduo, um ser único e particular, e a comunidade planetária. A exposição “Moacyr Scliar, o Centauro do Bom Fim” é um tributo e uma homenagem a um desses seres raros e especiais.

Carlos Gerbase, Curador

No início da semana passada consegui conferir de pertinho essa exposição que conta a história de vida e a trajetória profissional, tanto literária e jornalistica quanto médica, de um dos mais talentosos e queridos escritores gaúchos. Com curadoria de Carlos Gerbase, o Santander nos apresenta obras, trechos, fotografias, representações e adaptações de trechos de livros transmitidas em vídeo. São os tantos mundos de Scliar que se abrem aos nossos olhos e nos despertam para um lugar paralelo, com sensibilidade e talento encantadores. Embora boa parte da sua história e da inspiração para seus livros esteja no bairro Bom Fim, onde cresceu e viveu boa parte da sua vida com a família, é incrível perceber a criatividade, a ponto de tornar esse seu bairro querido em tantas versões!

Eu mais uma vez confesso (já um tanto envergonhada) que não cheguei a ler nenhum livro dele, lia sim as colunas publicadas em jornais, os textos espalhados pela internet e assistia suas entrevistas pela televisão. Scliar conseguiu, como dizem os que o conhecem profundamente, se destacar em todas as frentes em que atuou, sem deixar de lado uma ou outra profissão.

Pra começar, uma passarela como se estivéssemos entrando em um navio, logo já nos deparamos com um lugar que remete às ruas do Bom Fim, com luminárias expondo fotografias de família, dos eventos importantes, de lugares frequentados pelo escritor. A cada passo eu ficava mais encantada com tudo.

Algumas frases expostas nas paredes, alguns trechos de suas falas, objetos dispostos de maneira a ilustrar a vida e o cotidiano desse ilustríssimo senhor que nos deixou (ainda que tenham ficado suas obras) em 2011. Há também exposição de capas de seus livros, murais com as matérias e as colunas que assinou, as entrevistas que deu.

Se, na literatura, falava das dores dos espíritos, na medicina tratava das mazelas dos corpos. Cabe perguntar: como conseguia tempo e energia para alcançar resultados igualmente significativos nessas duas atividades, que exerceu cotidianamente, em paralelo, por mais de 40 anos? Este é um dos mistérios que esta exposição pretende investigar.

Gerbase

Painéis de LCD transmitiam para quem quisesse assistir alguns pequenos trechos das principais obras, como “O Centauro no Jardim”, “A Guerra no Bom Fim” e “A Mulher que escreveu a Bíblia”, entre tantas outras. Me despertou curiosidade em ler todos eles, mas principalmente este último, muito bem humorado, um tanto ácido, retratando ficticiosamente a bíblia, a julgar pelo trecho apresentado. Mais ou menos assim, Salomão se dá conta que entre suas (apenas) 700 mulheres,  a mais feia e rejeitada é a única que sabe ler e escrever, e escreve muito bem, dando-se conta disso e tendo em vista que seus discípulos escrevem muito mal, ele pede à ela que escreva a história da humanidade. Estou em comichões para ler logo! Já foi pra lista! ;)

Outra coisa na exposição que eu adorei, quase não quis ir embora quando descobri, foram as poltronas amarelas, lindas, com uma luminária também amarela e um criado mudo, onde ficava um tablet conectado à um fone de ouvidos e quando focávamos uma capa de livro ou cena ele nos remetia à trechos ou cenas. Eu ficaria horas a fio ali sentada, curtindo todas as obras do Scliar.

É interessante pensar que depois que alguém querido nos deixa, sempre fica algum legado, pequeno ou grande, em fotografias e documentos ou obras, e lembrar de tudo isso é sempre um momento especial e difícil, assim, dá pra imaginar como foi para a dona Judith Scliar (esposa do escritor) reunir todo esse acervo e relembrar tantos momentos da sua vida ao lado dele ou acompanhando a sua trajetória. E ao ver o quanto a exposição ficou bonita e bem organizada, acredito que ela sinta orgulho. Eu sentiria. E saudades.

Gente, se tiverem oportunidade de prestigiar esse querido escritor, digo que vale cada minuto passado por lá. E se quiserem se aprofundar, saber mais sobre a vida e a obra – eu também estou indo lá – é só visitar o site destinado ao Moacyr Scliar.

E agora, os meus registros… Ainda muito acanhados, mas acredito que dê pra ter uma noção do que espera por vocês!

Imagens: Arquivo Pessoal

PS: O Santander Cultural sempre abriga exposições muito interessantes além de atividades artísticas paralelas. No site oficial tem toda a programação, com horários e dias de visitação, com todos os detalhes.

O que? Exposição de Arte Visual || Moacyr Scliar – O Centauro do Bom Fim

Onde? Santander Cultural (Grande Hall) Praça da Alfândega – Centro Histórico – Porto Alegre

Quando? 17 de Setembro à 16 de Novembro de 2014.

Horário: Ter à Sab, das 10h às 19h

                 Dom e Feriados, das 13h às 19h.

Quanto? Entrada Gratuita